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sábado, 16 de maio de 2015

O Desenvolvimento da Inteligência Tende para uma Estruturação Lógico-Matemática (parte 1)


Livro: Piaget para Principiantes.
Editora: SUMUS Editorial

O Desenvolvimento da Inteligência Tende para uma Estruturação Lógico-Matemática (págs. 49 e 50)
(1º parte)

Num artigo inserido em L’enseignement des Mathématiques, T. I., Nouvelles Perspectives, Delachaux et Nestlé, 1965, Jean Piaget lembra que as estruturas-mães (Bourbaki) que os matemáticos consideram fundamentais, primitivas e irredutíveis (hoje, os matemáticos encontram “estruturas” ainda mais primitivas, como os morfismos, categorias, e funções, presentes, também, no desenvolvimento das crianças) são também as estruturas básicas que iniciam o desenvolvimento da inteligência das crianças, apresentando-se, nos dois primeiros anos, como atividades ainda sensório-motoras. Deste modo, a matemática pode ser apresentada como a sistematização (no plano hipotético-dedutivo) dos processos operativos usados pela inteligência desde a mais terna idade da criança, podendo-se dizer que, também a matemática, nos seus inícios não é senão a “coordenação das ações” (juntar, separar, incluir, etc.).
         Como a inteligência é, fundamentalmente, um processo combinatório, é evidente que, desde os primeiros momentos desta construção, as estruturas se combinam entre si, sem contudo, perder sua identidade. Só agora os matemáticos estão compreendendo (reorganização) que certas construções matemáticas, aparecidas historicamente, em primeiro lugar, são de fato, muito anteriores, na ordem genética da construção (“o que é primeiro na ordem da construção aparece por último na ordem de análise ou de tomada de consciência”). Assim é que, só recentemente, os matemáticos admitiram que as chamadas “intuições geométricas” (base das geometrias projetivas e euclidianas) não são intuições nem muito menos “entes”, mas resultado de longa e complexa construção a partir de “intuições” topológicas (vizinhança, fechamento, fronteira, etc.). Ora, a topologia, como disciplina matemática, só aparece, historicamente, recentemente.
         Esta descoberta é de importância excepcional para a pedagogia da matemática. Todo o estudo de geometria, projetiva e euclidiana, desta forma, deixa de partir de certas constâncias ou invariâncias tidas como a priori (linha, contínuo, distância, comprimento, correspondência, “intuições geométricas”, etc.) para começar pelas “intuições” topológicas. A construção das chamadas “intuições geométricas” exige um período de cerca de cinco anos no desenvolvimento da criança, precisamente, o período que vai de dois a sete/oito anos, quando se inicia o curso primário. Assim, a “matemática” do pré-primário (para não falar da matemática do sensório-motor) é de fato uma pré-matemática ou uma lógica embrionária, donde a dificuldade de os matemáticos (que acreditam nas “intuições” inclusive na do número: “Deus fez os números inteiros: o resto todo é obra dos homens”, Kronecker) de sugerirem atividades “matemáticas” para este longo e laborioso período do desenvolvimento da criança. Mas, não é só. De sete/oito anos a onze/doze anos, a criança constrói, lentamente, uma série de estruturas (classificação, seriação, substituição, simetria, tábua de dupla entrada, árvore genealógica) que serão indispensáveis para a aquisição das mais elementares noções da matemática (tudo isto que os matemáticos supõem que as crianças possuem, intuitivamente, ou de forma apriorística) ...
(Continuará)


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O bom papel do intelectual: agitador social•

Roberto Amaral

Da personalidade riquíssima, multifacetada --e muitas vezes desconcertante de Lauro Oliveira Lima-- destaco aquela característica que mais me marcou e fascinou: a do pioneiro. Emprego o termo querendo pôr em relevo seu caráter mais essencial. Designo aquele desbravador que está fora do tempo, do seu tempo, antecipando-o (como os poetas, os cientistas e os visionários), e, portanto, chocando-se, porque o novo incomoda, a dúvida incomoda e as mudanças são sempre perigosas para os inseguros.
Aliás, eis um caráter distintivo do intelectual militante: o comprometimento com a mudança, a intervenção na realidade, o desprezo pela tradição, o inconformismo com o statu quo. O intelectual pioneiro -– e estamos em face de uma quase redundância— não teme ser temerário, conquanto que jamais seja omisso.
Assim, o pioneiro, qualquer pioneiro é, por definição um gauche, uma amolação, pois sua efervescência, por si só, denuncia a pasmaceira, a renovação denuncia o comodismo, o revolucionarismo denuncia o conservadorismo. Encontro agora o ponto mais distintivo de Lauro: sem ser necessariamente um homem de esquerda ---e eu o conheci udenista--- foi sempre e é –- como educador, como escritor, como intelectual-- um anti-conservador por excelência, um demolidor da paz, da 'ordem natural das coisas', do 'estava-constituído', do statu quo. Uma onda de vento espalhando a papelada bem arrumadinha da burocracia, um redemoinho na ordem pré-estabelecida. Incomodando, portanto. Esse papel de um quase iconoclasta não deriva de boutade. Ora, ocorre que o assentado necessita da imobilidade e Lauro jamais arrefeceu diante das resistências. Eu sempre o vi abrindo caminho, forçando passagens, brigando, discutindo, reclamando, mas, acima de tudo, confiando no outro, estimulando-o, sinceramente convencido de sua missão de construtor. Construtor de homens. Este o grande mérito de sua pedagogia.
A partir de uma formação educacional-formal conservadora ---o Seminário, como quase todos os de sua classe no Limoeiro do Norte do seu tempo--- Lauro, fez-se intelectual nos embates da vida. Mas armou-se desde cedo daquela característica que separa o simplesmente erudito do verdadeiramente culto: nele a dúvida, mais que um método de pesquisa e análise, é o caminho do conhecimento que leva à intervenção. Conhecer para modificar. Ou seja, na melhor tradição daqueles intelectuais que foram beber água na fonte do Iluminismo: nada de verdades acabadas; relativizar sempre as certezas, exercer sempre a contradição, procurar o desconhecido, pôr em xeque o nosso conhecimento e as nossas idéias confrontando-as com as idéias e os conhecimentos que as negam e contradizem.
Depois de professor, foi didata; depois de didata foi pedagogo, depois de pedagogo foi pensador, repensando a educação de seu país. Começando pela cátedra (isto é, a experiência prática, fatual objetiva), para terminar na formulação. Não terá sido mero acaso, por tudo isso, que o hoje doutrinador consagrado, o autor do já clássico Escola secundária moderna tenha começado com o projeto concreto de reformulação do ensino público no Ceará e a montagem de uma escola particular. Sem nenhuma contradição.
Talvez eu incida numa heresia ao afirmar como afirmo agora que este professor jamais teve a sala de aula, no sentido da cátedra e das quatro paredes, como o seu espaço preferido de trabalho. Ao contrário, sempre privilegiou estar atrás do que estava atrás da sala, sem ocupar o proscênio: a discussão dos métodos, a discussão dos conteúdos, a discussão em torno do que dizer e como dizer, fazendo da sala de aula não apenas a máquina retransmissora de conhecimentos, mas o instrumento dialético-vivencial formador de homens e opiniões. Repito de memória -- lá se vão tantos anos que nem vale a pena contar-- o que, se me recordo bem, era o seu lema e o lema que imprimia o seu Ginásio Agapito dos Santos, onde intentou pôr à prova, como cientista que se dedica à demonstração experimental, suas teorias educativas: Non scholae sed vita discimus. 
Essa inquietude fez do educador também um jornalista --outro magistério-- de combate, um cronista de seu tempo, bacamarte apontando permanentemente para o tradicional e o convencional. Ficaram famosas do público cearense --embora muitas vezes provocando mal-estares na cúpula do jornal-- as crônicas de Kleber Santos no O Povo, de Fortaleza (e quando elas serão reunidas em volume, para salvarem-se da dispersão e da vida efêmera das folhas?). O cronista trouxe à luz o crítico fino, irônico, o raciocínio arguto enluvado por uma prosa leve, saborosa mas contundente quando se tratava de ir fundo na questão. Nas mãos deste anatomista o bisturi atingia as profundezas da crítica.
Jamais conheceu o meio termo, fazendo, dizendo, agindo, ou pensando. Nunca se preocupou com o consenso, com a isenção. Se não lhe atraía provocar a malquerença, posso dizer, jamais cultivou as amizades fáceis. Optando sempre, escolhendo sempre, definindo-se sempre, exige a definição dos que o cercam; à isenção, ao distanciamento falsamente científico, responde como um apaixonado pelas coisas que faz, irradiando inimizades e paixões por onde tem passado. Por isso é um homem de poucos amigos, mas de amigos fiéis.
Essa inquietude fez de Lauro ---e é isso o que estou querendo dizer-- um político, sem jamais institucionalizar-se, ou ceder à tentação de sentar na cadeira do ‘medalhão’, ao contrário de tantos e quantos colegas de geração menos dotados de engenho e arte. Na sala de aula não fez mais que política. Sua obra é a busca de uma política de ensino. Diretor ou chefe da Seccional do Ministério da Educação no Ceará, dirigiu-a perseguindo políticas. Sua luta como Diretor do Ensino Secundário, no MEC, ao tempo de Paulo de Tarso e Darcy Ribeiro, foi dotar nosso país, de particular o ensino público, a escola pública, de uma política de ensino que visava não só à excelência da formação, como à democratização, via universalização, do acesso de todo brasileiro a esse novo ensino. Relembro a unidade universalização-excelência para garantir a democratização. 
Quando quase tudo havia feito, quando quase tudo havia escrito, decidiu fazer política de corpo inteiro, candidatando-se a deputado federal pelo PSB do Ceará.
Terá sido esta experiência um fato isolado, inconseqüente? Parece-me que não. Destaca ela, ao contrário, no teórico da educação, o objetivo que sempre perseguiu, na cátedra, no cargo público, na formulação como escritor e jornalista: intervir na realidade para transformá-la. Certamente sem consciência desse papel --desconfio de que jamais leu um texto de Marx--, sua vida toda tem sido responder afirmativamente à 11ª tese contra Feuerbach: "Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo diferentemente, cabe transformá-lo".
Qual o objetivo de sua pedagogia? Mudar o mundo. Como? Mudando o homem através do conhecimento ativo, voltado para a mudança. O conhecimento, a informação, a técnica destinados a transformar a realidade, fazendo-a menos iníqua. Portanto, tinha toda a razão a direita cearense quando, ecoando no Sul, o ferrava como agitador social. Não sei se ele gostará dessa afirmação, mas estou convencido de que este foi o mais importante dos papéis que desempenhou, agitando a província pachorra, mexendo com uma elite perversa, retrógrada, atrasada, fútil, incompetente, uma classe-média amedrontada, conservadora, um clero inculto e reacionário, um proletariado incipiente controlado pelas organizações burocráticas, um mundo agrário sem vida, dominado por coronéis decadentes, povoado de camponeses famintos derrotados sem luta, pois antes do latifúndio já os mata a seca. Vida intelectual ativa quase nenhuma. Vida política cingida por partidos políticos vencidos. Imprensa provinciana presa às tetas do governo, qualquer governo, ensino público primário e secundário aviltado, universidade provinciana em formação e já perseguindo os caminhos errados que a levariam nacionalmente ao colapso de hoje.
Voltemos ao tema ‘mudar o homem’. Tenho a impressão de que todo educador alimenta esse objetivo, ainda que dele não tenha, necessariamente, consciência. Não se trata simplesmente de passar e repassar conhecimentos destinados à breve caducidade na sociedade tecnológica. Trata-se de ensinar a vida. Procuro aí uma explicação para que o schollar da escola secundária moderna se tenha voltado, piagetianamente, para o ensino de crianças, do pré-primário, com um olho nos pequenos estudantes e outros nos pais, nas famílias recalcitrantes diante de qualquer infração à rotina, ao tradicional, ao tradicionalismo. E a escola tradicional – e ela impera no Brasil, principalmente a pública, a única que enseja a presença do pobre e pode assim contribuir para a democratização— é incompetente, insatisfatória e reacionária, num processo de piora notável, que mais se agudiza quanto mais os últimos representantes da classe média correm para a escola privada. É assim que a sociedade de classes aprofunda a desigualdade de classes.
Conheci e convivi com Lauro em diversificados momentos de nossas vidas. Muito menino, no Ginásio Farias Brito, onde cursava o primário, e Lauro assumiu a direção pedagógica do estabelecimento. No seu Agapito dos Santos, onde fiz o curso ginasial, como seu aluno de latim e português. Mais tarde, na universidade, eu líder estudantil esquerdista e Lauro educador/intelectual progressista no Ceará atrasadíssimo e, logo a seguir, diretor do MEC, onde tentamos um livro em comum cujos originais, que jamais lograram conhecer os prelos, terminaram por engrossar os dossiês dos muitos inquéritos que cada um de nós por seu lado respondeu depois dos idos de março de 1964. No MEC foi alcançado pela repressão que o homenageou com a cassação dos direitos políticos e o puniu com aposentadoria compulsória e proporcional. Que melhor reconhecimento quereria ele do acerto de sua obra? A terceira ou segunda fase de nossa convivência se deu nos anos de chumbo. Quase-clandestino e quase-exilado dentro de meu país, a caminho de um exílio no exterior que os fados decidiram frustrar, fui reencontrá-lo no Rio, saída obrigatória, na dura tarefa de assegurar a própria sobrevivência sua e de sua família. Aí emergiu um outro lado de seu caráter pessoalíssimo: o amigo generoso. 
O meu reconhecimento pelo seu significado tentei, com lucro, demonstrar da única forma que me pareceu objetiva. Entregando-lhe, na Escola piagetiana que montaria no Rio, a educação (formação) de meus três filhos. Que me ficaram gratos.
(1996)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A Origem do Poder (Parte 2) [continuação]

Continuação

Capítulo 23
ORIGEM DO PODER
“Os mecanismos da Liberdade” - Lauro de Oliveira Lima



Como não há limite para o conhecimento, não há também limite para a dominação. Assim, pode-se transferir o conceito de assimilação para o conceito de poder. O poder é a manifestação social e política da maior ou menor capacidade que o indivíduo tem de assimilar (dominar) os demais indivíduos da mesma espécie. Na assimilação o aspecto afetivo é tão importante quanto os fatores intelectuais baseados na magia, no misticismo, na ideologia (carisma e culta da personalidade), isto sem nos referirmos aos fatores econômicos. Pode-se dizer que o homem tem poder virtual sobre tudo, inclusive sobre os outros homens, porque tem poder sobre um “objeto” (ou organismo ou pessoa), é um organismo ou agente que pode assimilar este “objeto”, manipulá-lo, pô-lo a serviço de seus interesses, impedi-lo de pôr em perigo sua sobrevivência, seu status, seu prestígio, obrigá-lo a agir em seu benefício, etc. Um organismo que não tem mecanismos inatos de comportamento, que pode criar ilimitados esquemas de ação e, criando esquemas novos de ação determina novas necessidades originais a elas correspondentes … esse animal pode também, pelo menos teoricamente, dominar o universo inteiro - salvo apenas se a prática demonstrar que existe um limite em sua capacidade de inventar e descobrir. A recente aventura espacial do homem é uma demonstração dessa tese: não há limite espacial ou temporal para a capacidade real ou virtual de o homem assimilar o meio.
Cada indivíduo comporta-se como se fosse o único ser vivo dentro de um universo limitado “posto a serviço” de suas necessidades, empenhando-se ferozmente a assimilar o universo inteiro. Isso, através de estratégias de ação que visem a assimilação real ou virtual do conjunto de fenômenos ou de objetos da realidade. Ora, todo esquema de ação, ao se transformar em capacidade, é estritamente adequado a determinada necessidade. Não exercer determinada capacidade é privar o organismo de uma satisfação. Como a natureza não cria capacidades que não correspondam a necessidades, a satisfação das necessidades faz parte estrita da sobrevivência. Donde se pode concluir como os tabus sociais limitam ou deformam o equilíbrio biológico do ser humano. Ora, se a capacidade de assimilação do organismo humano é ilimitada, todas as coisas que compõem a realidade estão sob seu “poder”. Não assimilar algo assimilável , pois, é diminuir a capacidade vital. Uma das maiores tolices que a humanidade vem repetindo através dos tempos, é que se pode suprimir os “instintos”, o que equivale a dizer que se devem surprimir certas necessidades básicas. A supressão dos “instintos” implicaria na eliminação dos mecanismos naturais de sobrevivência do organismo. O que se pode fazer, em relação aos “instintos” (?) individuais é estabelecer regras (acordo) de tal modo que todos os organismos da mesma espécie possam satisfazer suas necessidades, dentro do mesmo espaço vital, com o máximo de lucros e o mínimo de perdas para cada indivíduo.
Outro exemplo de deformação do processo vital é a “filosofia” hindu de eliminação de atividade sensorial em benefício das atividades virtuais (meditação), o que pode levar a uma esquizofrenia, na medida em que os sentidos são as portas de entrada da realidade e os mediadores das relações do indivíduo com o meio. A diminuição das capacidades só pode resultar de acordo em vista do bem comum e o acordo é ainda um ato de “egoísmo”, na medida em que é a única solução para garantir a sobrevivência de organismos equipotentes dentro do mesmo espaço vital. Em termos de poder, pois, pode-se dizer que o homem pode e deve dominar tudo, porque pode assimilar tudo. Observando-se a natureza, verifica-se que cada espécie de animal instintivamente domina espécies inferiores e é dominada por espécies superiores, possuindo mecanismos inatos para conviver com os demais animais da mesma espécie. Os etologistas já descreveram quais são os mecanismos de equilibração com que  os animais da mesma espécie controlam a agressão mútua. Na disputa uns com os outros por seu próprio “espaço vital”, os indivíduos da mesma espécie não ultrapassam o limiar além do qual a sobrevivência da espécie correria perigo.
Ora, o homem não tem estes mecanismos instintivos de controle da agressão (da assimilação, da dominação e do poder), isto é, não tem  limitações naturais para sua capacidade ilimitada de assimilação, ou, se quisermos  falar na linguagem dos ecologistas, não tem limitações naturais para sua hostilidade. Deve, então, “fabricá-las” ao longo de seu desenvolvimento (ontogénese) e de sua evolução (filogênese), em forma de mandamentos, códigos, tabus, etiquetas, etc., impostos ou negociados. É por isso que o homem tem que criar normas de conviver. As primeiras foram atribuídas a Deus, quando é evidente que um grupo que precisa conviver descobriria, por si mesmo, estas regras elementares por mais baixo que fosse o seu nível mental. Estas limitações ou são impostas por certos indivíduos (legisladores, guias espirituais, condutores) ou por grupos e pelo Estado, ou então resultam de acordo livre das partes segundo a lei máxima d ganhos e mínimo de perdas. Pode ocorrer que as regras, em vez de disciplinarem as relações, visem evitar que as relações se estabeleçam, e isto sempre é feito em benefício dos dominadores. Quase todos os projetos civilizatórios consistem em amortecer as relações em vez de estabelecer-se um processo que resolva o funcionamento permanente do conflito.
Assim, teremos várias hipóteses de “convivência” dos indivíduos dentro do mesmo “espaço vital”, antes que a inteligência humana alcance o nível da negociação: (a) convivem todos os indiferentes, uns aos outros, como ocorre em grau maior ou menor numa multidão (“participação” por oposição a “interação”); (b) criam-se áreas compartimentalizadas tangenciais de conivência (“a liberdade de cada um vai até onde começa a do outro”) como ocorre no sistema arcaico de castas e como continua a ocorrer no atual sistema de classes sociais; c) uns dominam simplesmente os outros, usando-os como mero mecanismo de sua atividade (como se o outro se tivesse tornado uma prótese sua), modelo que, a partir da família, propagou-se por toda a organização social nos últimos milênios (heteronomia) e que se tornou o pólo basicamente oposto à democracia sendo evidente que esta solução implica em profundo desnivelamento entre os seres humanos, desnivelamentos que provêm da aquisição de próteses que são negadas aos dominados (armas, terra, instrução, crédito, carisma, etc.); d) entram em conflito ocasional ou permanente, conflito que seria o sinal de que o “outro” não se deixou dominar, como ocorre nas chamadas democracias liberais do ocidente - a chamada “meritocracia”, que deveria ser a institucionalização do conflito permanente, é uma farsa na medida em que alguns partem para a disputa com evidentes e marcantes desvantagens, quando a instalação do conflito permanente supõe, por exemplo, alimentação e educação equivalentes desde o período da gestação, o que leva a crer que antes da instalação da democracia deverá haver um período longo de homogeneização dos indivíduos dentro da sociedade no que tange á sua capacidade de enfrentarem-se, no conflito, uns aos outros; e) a negociação de um acordo (contrato social), segundo a lei do máximo de ganhos e do mínimo de perdas, acordo que resultaria da equilibração das capacidades homogeneizadas, de tal forma que ninguém pudesse dominar os demais, pois sem esta homogeneização a democracia é uma farsa ou uma concessão dos mais fortes.
A indiferença [a] mostra que não há interesse em assimilar o outro; [b] a compartimentalização ou convivência pacífica mostra que não há conflito quanto ao espaço vital ou que invadir o espaço vital do outro implicaria um risco de destruição;  [c] a dominação demonstra que uns são mais fortes que os outros; [d] o conflito denuncia certa equivalência de forças e interesses que não foram ainda resolvidos por um acordo (luta de classes?); [e] o acordo, finalmente, revela que a inteligência encontrou uma solução para a convivência dentro do mesmo “espaço vital”. O acordo supõe (1) equipotência, (2) interesses comuns, (3) flexibilidade para encontrar uma solução segunda a lei do máximo de lucros e mínimo de perdas. Em geral só nos referimos a “poder” no caso da dominação, o que demonstra que o poder é sempre a manifestação de um desequilíbrio na relação entre os indivíduos. Se o outro não fosse inferior, surgiria o conflito na tentativa de dominação mútua e provavelmente o problema seria resolvido, ou pela mútua destruição ou pelo contrato social.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Biografia de Lauro de Oliveira Lima

Capa da biografia do Professor Lauro de Oliveira Lima

    No início de 2011, foi lançado pelo "Clube dos Autores" a biografia de Lauro de Oliveira Lima, escrita por José Luiz de Paiva Bello em 1996, fruto de uma Dissertação de Mestrado em Educação.
   Nas palavras do autor: "Lauro de Oliveira Lima é um educador, nascido em Limoeiro do Norte, no estado do Ceará. Pioneiro no uso das teorias da Epistemologia Genética, de Jean Piaget, no Brasil, a partir da cidade de Fortaleza, através da criação do Método Psicogenético. Sua trajetória na educação brasileira é rica, tendo tido uma atuação significativa no cenário pedagógico, antes do advento do golpe militar de abril de 1964.
Após isso, dedicou-se ao trabalho na Escola Chave do Tamanho, com a enorme colaboração de sua esposa, dona Maria Elizabeth de Oliveira Lima e de seus filhos. A Escola Chave do Tamanho é hoje dirigida por sua filha Ana Elizabeth, a Beta. Todos os seus filhos seguiram os caminhos da educação. 
   Autor de vários livros sobre educação que contribuíram concretamente com o pensamento pedagógico brasileiro. Seu livro de maior repercussão foi Mutações em educação, segundo McLuhan."
   A obra pode ser adquirida através do site http://clubedeautores.com.br/book/26944--Lauro_de_Oliveira_Lima.

Equipe Chave

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Alunos analfabetos


Frei Betto
No primeiro semestre deste ano, aplicou-se a Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização) em turmas de alunos que concluíram o 3º ano do ensino fundamental, em todas as capitais do país.Uma iniciativa do movimento Todos pela Educação com o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

O resultado é alarmante. Constatou-se que 43,9% dos alunos são deficientes em leitura e 46,6% em escrita. Ou seja, são semialfabetizados. Não captam o significado do que leem e redigem uma simples carta com graves erros de sintaxe e concordância.

Quanto à leitura, quase metade (48,6%) dos alunos da rede pública correspondeu ao resultado esperado. Na rede de escolas particulares, o desempenho foi bem melhor: 79%. No item escrita tiveram bom resultado apenas 43,9% dos alunos da rede pública. Na rede particular, 86,2% dos alunos se saíram bem em redação.

Os índices demonstram que, no Brasil, a desigualdade social se alia à desigualdade educacional. Alunos da rede pública, oriundos, na maioria, de famílias de baixa renda, não trazem de berço o hábito de leitura.Seus pais possuem baixa escolaridade e o livro não é considerado um bem essencial a ser adquirido, como ocorre em famílias de renda mais elevada.

De qualquer modo, é preocupante o fato de alunos, tanto da rede pública quanto da particular, não atingirem 100% de alfabetização ao concluir o 3º ano do ensino fundamental. O que demonstra falta de método de alfabetização, embora esta seja a nação que gerou Paulo Freire.

Uma criança que, aos 8 anos, tem dificuldade de leitura e escrita, sente-se incapaz de lidar com os textos de outras disciplinas escolares, o que prejudicará seu aprendizado. Uma alfabetização incompleta constitui um incentivo ao abandono da escola ou a uma escolaridade medíocre.

É hora de se perguntar se a progressão automática, isto é, fazer o aluno passar de ano sem provar estar em condições, é uma pedagogia recomendável. Com certeza, no futuro, o adulto com insuficiente escolaridade não merecerá aprovação automática em empregos que exigem concurso equalificação.

Priscila Cruz, do Todos pela Educação, frisa a importânciada educação infantil (creches, jardim da infância etc.) para dar à criança uma boa alfabetização. Para que se desperte na criança a facilidade de síntese cognitiva é importante que ela comece a ouvir histórias ainda no ventre materno.

O Brasil é um país às avessas. A Constituição de 1988 cometeu o erro de incumbir a União do ensino superior, o estado do ensino médio, e o município do ensino fundamental. Ora, uma nação se faz sem educação. E a base reside no ensino fundamental. Dele devia cuidar o MEC.

Nenhum governo implementou, ainda, a revolução educacional sonhada por Anísio Teixeira, Lauro de Oliveira Lima, Paulo Freire e tantos outros educadores. Como acreditar que apenas 4 horas de permanência na escola são suficientes para uma boa educação? Por que os alunos não permanecem de 6 a 8 horas por dia na escola, como ocorre em tantos países?

No Brasil, 10% da população adulta são considerados analfabetos. No Chile, 3,4%. Na Argentina, 2,8%. No Uruguai, 2%. Em Cuba e na Bolívia, 0%.

Outros fatores que contribuem para a semialfabetização são o desinteresse dos pais pelo desempenho escolar do filho e o longo tempo que este dedica à TV e a navegar aleatoriamente na internet. Nessa era imagética, há o sério risco de se multiplicar o número de analfabetos funcionais ou de alfabetizados iletrados, aqueles que sabem ler, mas não interpretar o texto, e muito menos evitar erros primários na escrita.

O governo deve à nação uma eficiente campanha nacional de alfabetização, inclusive entre alunos dos 3º e 4º anos. Para isso, há que ter método. Há vários. Quem se interessar por um realmente eficiente, basta indagar do deputado Tiririca como ele se alfabetizou em dois meses, a tempo de obter seu diploma na Justiça Eleitoral.

[Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto – autobiografiaescolar” (Ática), entre outros, http://www.freibetto.org- twitter:@freibetto.
Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reproduçãodeste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, semautorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberádiretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária(mhpal@terra.com.br)].

sábado, 12 de novembro de 2011

Os papéis do professor e do aluno


" ... haverá uma revolução no que concerne aos papéis de aluno e de professor."

   O professor-informador e o aluno-ouvinte serão substituídos pelo "professor-animador" e o "aluno-pesquisador", mutação que já pode ser realizada amanhã, pois não exige investimentos com recursos materiais. O problema da pesquisa versus ensino será superado pela generalização da pesquisa: tudo na escola do futuro será atividade de indagação e desalio para descoberta de soluções novas. A velocidade da substituição do conhecimento eliminará a idéia de ensino e desafiará a pesquisa em todos os domínios mesmo das crianças do jardim de infância (ver Arte Infantil). A escola não será a "casa dos professores", mas a "casa das crianças" como já queria Montessori. A medida de sua organização não será o adulto, mas seus mini-habitantes. Como na Idade Média, quando foram fundadas as universidades, os professores serão escolhidos pelo aluno, uma vez que serão meros "experts" a sua disposição. É mesmo possível que a função de professor desapareça por generalização: todos os adultos passarão  a ser "professores" das novas gerações, como foi na aldeia tribal ... A idéia de ensino será substituída por uma auto-aprendizagem (ver A ESCOLA SECUNDÁRIA MODERNA), cabendo ao professor criar situações (animador) em que os jovens se disponham a utilizar a informação de que está prenhe o ambiente. Ora, utilizar a informação do ambiente é, simplesmente, pesquisar. A atividade do aluno não se distinguirá, fundamentalmente, da do cientista. Não se tratará, como diz Mcluhan, da mera dramatização do processo de redescoberta, mas de uma atividade, realmente, original. Dado a velocidade da mudança, o desafio que se proporá ao aluno versará sobre o "próximo passo", disparando um processo universal de criatividade. Também o operário da fábrica será desafiado  a inventar a próxima máquina dando, realmente, um sentido construtivista universal à atividade humana. Em vez de cultivar-se a tradição, projetar-se-á, permanentemente, o futuro. Em vez de estudar-se a história, far-se-á prospectiva. Ora, tudo isso retira ao professor seu trunfo histórico de "depositário de conhecimento": ele terá que colocar-se perante o desafio na mesma posição indagadora do aluno, podendo seus resultados ser inferiores aos obtidos pelos jovens, mesmo porque os jovens não possuem os percalços dos quadros mentais esclerosados próprios dos adultos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Matéria no Jornal O POVO [Ceará]

Matéria publicada no dia 22 de outubro de 2011 no Jornal O POVO, com referência ao Professor Lauro de Oliveira Lima em seu contexto.

Professores e Médicos


Ter vocação para desempenhar determinado ofício é uma graça divina, principalmente quando se faz da profissão um momento especial para ajudar os outros ou minimizar o sofrimento de alguém. Existem profissionais abnegados que se dedicam prazerosamente ao seu trabalho cotidiano, e o fazem de tal forma com competência, que chegam a causar admiração. Esses profissionais não chegam a ser um número estatisticamente alto, mensurável, porque em todas as categorias existem bons e maus profissionais. Na verdade, eles estão aí nos consultórios, nos hospitais, nas clínicas, nas escolas, fazendo sua parte e encarando a vida de frente, sem constrangimentos.

No último dia 18, comemorou-se o Dia do Médico. Um dos profissionais de maior importância para a sociedade, assim como o professor, que também é homenageado neste mês. Ambos reconhecidamente necessários, no entanto, nem sempre reconhecidos pelo poder público da relevância de suas funções. As políticas públicas não são suficientes, no sentido de atender às demandas e contribuir para o exercício de práticas exitosas a fim de que estas categorias alcancem seus objetivos com relação ao atendimento à população.

Conheço médicos e professores altamente qualificados, responsáveis e que, no dia-a-dia, se dedicam de modo inigualável para fazerem sempre o melhor para os que dependem de sua assistência. Preocupados com o crescimento, passam a vida estudando, participando de congressos, cursos de aperfeiçoamento, seminários, com o intuito de se atualizarem, porque a cada dia aparecem novidades nos respectivos campos em que atuam, bem como precisam estar antenados com as novas tecnologias. Poderia enumerar alguns deles, pois os conheci e os admiro pela entrega e a forma como conduziram com ética e competência no seu ramo de atividade. Há anos passados conhecemos homens como Paulo Freire, Anísio Teixeira, Lauro de Oliveira Lima, Haroldo Juaçaba, Marcelo Martins Rodrigues, Pontes Neto, Régis Jucá, que deixaram exemplos de dignidade ao encararem a profissão como verdadeiro sacerdócio.

E para fazer justiça, gostaria de homenagear os profissionais que passaram ou estão passando pela minha vida, pelos os quais tenho o maior carinho, respeito e deferência: Consuelo Magalhães, Eunice Bastos, Zilma Nóbrega, Célia Cirino, Elvis Barbosa e Claudio Pinheiro. São exemplos de cidadãos íntegros e possuidores de uma humanidade no trato e no relacionamento com seus alunos ou pacientes, porque exercem ou exerceram a profissão com amor.

Obrigada, Mestres, por terem sido vocacionados para ofícios tão significativos e se entregarem por inteiro, para servir o outro, sempre com um sorriso nos lábios e uma palavra generosa de incentivo e esperança.


Evan Bessa
evanbessa@terra.com.br
Pedagoga

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Todos nós somos especialistas



     Jean Piaget assinala que as crianças da Martinica (Antilhas Francesas) seguem, no curso primário, o mesmo programa das crianças de Paris. Conseguem ser aprovadas. Recebem  os certificados de conclusão e … apresentam em geral um atraso (sic!) de quatro anos no desenvolvimento das operações mentais, o que demonstra que a escolaridade consiste apenas numa superposição artificial e superficial, que não solicita os mecanismos fundamentais das estruturas mentais. A escolaridade, como se vê, não exige, como précondição, determinados níveis mentais: os programas não levam em conta os níveis operacionais das explicações dadas de forma figurativa (mera memorização e automatização). Ter um determinado certificado ou diploma nada significa, portanto, como capacidade de operar as informações (as pseudo-operações automatizadas, como por exemplo, o cálculo, realizam-se abaixo do nível da reflexão, não exigindo “tomada de consciência. As informações assim obtidas desaparecem da mente se não forem continuamente usadas (reforço). O “conteúdo” pode ser aprendido em bloco, mediante repetição, sem que se exija a utilização dos mecanismos operacionais implícitos (as fórmulas, por exemplo, são aprendidas assim).  Quando se fala, pois, em “mais conteúdo” (a nova moda acadêmica), isso nada significa: é mais informação para ser esquecida!
Outra maneira de se “aprender” é assimilar os mecanismos operacionais implícitos (operadores) no fenômeno que os leigos denominam “conteúdo” (compreender, por exemplo, os mecanismos de funcionamento do pêndulo). A compreensão dos processos operatórios implícitos nos fenômenos físicos (causalidade) é assimilada segundo o nível de desenvolvimento mental, daí não se poder falar  em “saber sistematizado”. No sistema métrico, as operações de comprimento, por exemplo, correspondem a um nível mental de 5 ou 6 anos; as de peso, a um nível mental de 8 ou 9 anos. e as de volume, a um nível mental de 11 ou 12 anos. Os mestres “ensinam” (memorização) tais conteúdos sem levar em conta estes níveis operacionais. O aprendiz é que determina sua capacidade de compreensão e de explicação do fenômeno (causalidade).
Durante a escolaridade, segundo o modelo atual, a criança jamais tem necessidade de fazer “esforço operacional” na elaboração de soluções  (combinação de esquemas), limitando-se a aplicar automaticamente algoritmos (fórmulas) ou a decorar sequências  verbais (como na tabuada) em que a compreensão da operação não tem importância. A criança que recita “de cor” a tabuada é, em geral, incapaz de explicar por que 7 x 8 = 56!  A sequência verbal automatizada nada tem a ver com a operação implícita. É compreensível que estas sequências  decoradas desapareçam pelo desuso. Todo hábito que não é “alimentado” (uso) tende a extinguir-se.
Os esforços do professorado da Martinica são inteiramente inúteis: o “conteúdo”, a duras penas metido na memória das crianças, ou os automatismos por elas dominados não irão servir para elevar seus níveis operacionais gerais quando adultas, na “guerrilha” dos sistemas de produção”. Todos sabem que as crianças perdem até a capacidade de ler quando a alfabetização não é alimentada de alguma maneira (fato ocorrido nas praias isoladas do Ceará). A aprendizagem memorizada não se generaliza, permanecendo confinada a situações escolares. Os condicionamentos são extremamente especializados. Só os processos operacionais são generalizáveis e irreversíveis, daí se dizer que o objetivo da escola, hoje, é estimular a operacionalidade, sem nenhuma pretensão de acumular “conteúdos” na mente da criança. É óbvio que não há operacionalidade sem conteúdo. Seria operar no vazio.
Um grupo de professores de matemática do Rio de Janeiro, reunido para uma pesquisa (pedagogia experimental) durante quatro anos, recolheu as provas de maiores notas de um grupo de alunos, reaplicando-as aos mesmos alunos nos anos seguintes. O aluno tentava responder de novo a prova em que tirara a nota máxima no ano anterior. As crianças que tinham tirado nota 8, 9 ou 10 nas provas das primeira séries, e que continuavam tirando notas altas nas séries seguintes, baixavam drásticamente os resultados obtidos nas provas reaplicadas. O aluno da quarta série praticamente tirava zero na prova em que tinha tirado dez na primeira série. O ensino da matemática, como se vê, só tinha servido para fazer as provas do momento. Os conhecimentos desapareciam na medida em que os alunos subiam nas séries escolares! Estes resultados não surpreendem nenhum educador que conheça o que ocorre no sistema escolar. A aprendizagem é fugaz, desaparecendo quando cessa a coação (ameaça de exames). E ninguém grita que “o rei está nu”! Duvidamos  que no curso de formação de magistério, no mestrado, no doutorado, estes fatos tenham sido analisados! Verdadeira escamoteação da realidade pedagógica, para onde vai ser remetido o noviço! Tudo  o que é “ensinado” na escola é praticamente esquecido. Qualquer um pode constatar este fato em si mesmo. Quando vejo a ferocidade da mãe-auxiliar, que rasgou a prova do meu neto, pergunto-me: por que tanta braveza no exercício policial da função, se tudo vai ser esquecido?!
Em matéria de hábitos, de habilidades, de reflexos condicionados, somos todos especialistas. Só conservamos na memória  ou como automatismo o que diz respeito ao nosso trabalho, às nossas preocupações, ao nosso hobby: a matemática, a química, a história, a física que nos ensinaram (e que lindas provas coladas fizemos) desaparecem de nossa mente. Sendo o homem um animal criativo, precária é a sua capacidade de memorização e de conservação de hábitos. Daí ter a humanidade, em todos os tempos, buscado meios de memorização maquinal (robô atual). Os antigos veneravam os velhos porque se transformavam nos guardiães das lendas e das memórias da tribo. A morte de um ancião era como o incêndio da biblioteca de Alexandria!... Não havia outra maneira de se preservar a tradição … até que a humanidade descobriu a escrita. Nesse dia, os velhos perderam seu prestígio. Começou o uso da memória mecânica (escrita). Daí para cá, a humanidade vem inventando variados meios (hoje eletrônicos) de guardar as informações: fotos, filmes, gravadores, computadores, satélites, bancos de dados).
   Ora, a escola sempre foi um local em que se tentou gravar informações na mente das crianças, começando-se com a recitação (aula expositiva ou conferência). Com os gravadores, acabou a conferência (aula expositiva) e a memorização (estudo, decoração). A escola assumiu seu verdadeiro papel: continuar o processo embriológico do útero, isso é, estimular o desenvolvimento físico, verbal, mental (educação pela inteligência). Os dados, estão armazenados em bancos de dados. O problema é operacionalizá-los. O objetivo é transformar a cachoeira selvagem em usina hidroelétrica, é fazer o átomo produzir energia, é fazer o computador “computar”. Para isso servem as próteses que o homem inventou (microscópio e o telescópio)
Um exemplo patético e histórico: o grande momento da escolaridade era a “alfabetização” (acesso aos conhecimentos arquivados nas bibliotecas, daí a mística que em torno dela se criou). Mas a escola tradicional sequer conseguiu criar o hábito da leitura. Uma massa enorme de alfabetizados, inclusive doutores, jamais lê! O  número de livros editados no Brasil, para uma população de quase 150 milhões de indivíduos, diz bem o que a escola conseguiu em matéria de alfabetização. O mais trágico é termos voltado à oralidade!!! Milhões de pessoas analfabetas assistem às novelas de televisão, que dispensam a arte de ler! Certa vez propusemos à UNESCO vasta pesquisa internacional para saber o que fica na mente do homem comum, de tudo o que a escola ensinou (poder-se-ia repetir a experiência do grupo de matemática, aplicando as mesmas provas que as pessoas realizaram na escola onde estudaram). Depois disso, numa assembléia internacional, decidir-se-ia se vale a pena investir tanto em educação. Um curso de formação de professores (do segundo grau ao doutorado) deveria começar, sempre, com uma bateria de provas em uso no sistema escolar, para se verificar o que os candidatos ao magistério guardam dos seus longos anos da escolaridade. O resultado é previsível: mais de 90% dos programas terão que ser esquecidos. A constatação sobre essa bizarra constatação serviria de “pano de fundo” na formação do professor: se 90% dos programas ensinados vão ser esquecidos, de que vale o esforço de mestres e alunos durante anos e anos? Afinal, qual deve ser o currículo escolar? Que “conteúdos” ensinar? Por que (quase) tudo é esquecido? Os universitários sabem que quase tudo o que aprenderam para o vestibular desaparece logo após o exame (permanecem apenas fragmentos desarticulados, sem nenhuma utilidade). As noitadas que precedem os exames fornecem conhecimentos que duram apenas um momento. E assim é feita a vida escolar: “aprende, esquece” … até o dia em que o diploma encerra o processo, consagrando o portador de um conhecimento que já não possui.
Todo mundo sabe que a atividade prática é que “forma”, verdadeiramente, os profissionais. Se levássemos em consideração a perda de mais de 90% do ensino, mudaríamos totalmente os programas e as práticas escolares; O que fica desta atividade? As operações mentais que o próprio aprendiz constrói e que são irreversíveis. Eis aí a finalidade da escola: provocar a construção das operações mentais (para isto servem os “conteúdos”. Não nos preocupemos com informações e habilidades. Os meios de comunicação de massa estão saturando o meio sócio-cultural com informação, e os robôs estão assumindo as habilidades. Hoje, discute-se até a validade da profissionalização frente  a turbulenta mudança tecnológica, pois a profissionalização pode levar a um beco sem saída (extinção das profissões). A natureza do ser humanio é a polivalência de suas capacidades, seu poder criativo e sua tendência às mudanças. Os animais (instinto) é que são especialistas. O homem não tem instinto. Um homem inteligente pode exercer qualquer função, pois é próprio da inteligência resolver problemas.
Hoje, como ontem, o sistema escolar vem fracassando na inglória tentativa de “fixar” informações na mente das crianças e treiná-las em certas habilidades. Ora, só uma coisa é fundamental: usar a inteligência. A preocupação da escola tradicional em criar hábitos, em fazer memorizar, em transmitir um “saber sistematizado” é uma traição à natureza do homem.

* * *

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Mutações ou projeções?


"A Educação era (até agora) tarefa relativamente
simples: bastava descobrir as necessidades da
máquina social e depois recrutar e formar o
pessoal que a elas correspondesse."

As projeções atuais dos futurólogos são insuficientes para prever o futuro, já que as transformações sócio culturais são mais "mutações" do que meras "projeções". Não há, pois, como "descobrir" as necessidades da máquina social do ano 2000. Que se deve, pois, ensinar às crianças que hoje estão nas escolas? Diante desta prespectiva são profundamente simplórias e até ridículas as atuais reflexões sobre programas e currículos. Educar já não é prever as necessidades sociais, mas preparar os jovens para o imprevisível. Toda idéia de treinamento a longo prazo é indébita (embora a curto prazo seja ainda a solução imediatista para um país subdesenvolvido). Ora, como se pode imaginar educação para o imprevisível? A resposta parece ser: desenvolver a capacidade de resolver problemas, o que minimiza a idéia de currículos e de programas, trocando-se a ênfase sobre os conteúdos para uma ênfase sobre as técnicas. O imediatismo pseudocientífico dos economistas que se referem á Educação como "necessidade do mercado de trabalho" e como "preparação dos recursos humanos", é insuficiente para interpretar a gravidade sociológica do fenômeno escolar no mundo que se está construindo. O know-how de hoje pode ser uma capitis diminutio para a adaptação do homem dentro de uma civilização em mudança: os velhos tem dificuldade de obter trabalho pela incapacidade de mudar de hábitos profissioinais. A "preparação dos recursos humanos" não pode ser mero preocesso de "linha de produção", vez que não se pode jogar fora o homem cujo know how obsolesceu...

Mutações em Educação segundo Mcluhan
Cosmovisão 1 - VOZES
18a Edição
Lauro de Oliveira Lima - 1985
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