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sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Todos nós somos especialistas
Jean Piaget assinala que as crianças da Martinica (Antilhas Francesas) seguem, no curso primário, o mesmo programa das crianças de Paris. Conseguem ser aprovadas. Recebem os certificados de conclusão e … apresentam em geral um atraso (sic!) de quatro anos no desenvolvimento das operações mentais, o que demonstra que a escolaridade consiste apenas numa superposição artificial e superficial, que não solicita os mecanismos fundamentais das estruturas mentais. A escolaridade, como se vê, não exige, como précondição, determinados níveis mentais: os programas não levam em conta os níveis operacionais das explicações dadas de forma figurativa (mera memorização e automatização). Ter um determinado certificado ou diploma nada significa, portanto, como capacidade de operar as informações (as pseudo-operações automatizadas, como por exemplo, o cálculo, realizam-se abaixo do nível da reflexão, não exigindo “tomada de consciência. As informações assim obtidas desaparecem da mente se não forem continuamente usadas (reforço). O “conteúdo” pode ser aprendido em bloco, mediante repetição, sem que se exija a utilização dos mecanismos operacionais implícitos (as fórmulas, por exemplo, são aprendidas assim). Quando se fala, pois, em “mais conteúdo” (a nova moda acadêmica), isso nada significa: é mais informação para ser esquecida!
Outra maneira de se “aprender” é assimilar os mecanismos operacionais implícitos (operadores) no fenômeno que os leigos denominam “conteúdo” (compreender, por exemplo, os mecanismos de funcionamento do pêndulo). A compreensão dos processos operatórios implícitos nos fenômenos físicos (causalidade) é assimilada segundo o nível de desenvolvimento mental, daí não se poder falar em “saber sistematizado”. No sistema métrico, as operações de comprimento, por exemplo, correspondem a um nível mental de 5 ou 6 anos; as de peso, a um nível mental de 8 ou 9 anos. e as de volume, a um nível mental de 11 ou 12 anos. Os mestres “ensinam” (memorização) tais conteúdos sem levar em conta estes níveis operacionais. O aprendiz é que determina sua capacidade de compreensão e de explicação do fenômeno (causalidade).
Durante a escolaridade, segundo o modelo atual, a criança jamais tem necessidade de fazer “esforço operacional” na elaboração de soluções (combinação de esquemas), limitando-se a aplicar automaticamente algoritmos (fórmulas) ou a decorar sequências verbais (como na tabuada) em que a compreensão da operação não tem importância. A criança que recita “de cor” a tabuada é, em geral, incapaz de explicar por que 7 x 8 = 56! A sequência verbal automatizada nada tem a ver com a operação implícita. É compreensível que estas sequências decoradas desapareçam pelo desuso. Todo hábito que não é “alimentado” (uso) tende a extinguir-se.
Os esforços do professorado da Martinica são inteiramente inúteis: o “conteúdo”, a duras penas metido na memória das crianças, ou os automatismos por elas dominados não irão servir para elevar seus níveis operacionais gerais quando adultas, na “guerrilha” dos sistemas de produção”. Todos sabem que as crianças perdem até a capacidade de ler quando a alfabetização não é alimentada de alguma maneira (fato ocorrido nas praias isoladas do Ceará). A aprendizagem memorizada não se generaliza, permanecendo confinada a situações escolares. Os condicionamentos são extremamente especializados. Só os processos operacionais são generalizáveis e irreversíveis, daí se dizer que o objetivo da escola, hoje, é estimular a operacionalidade, sem nenhuma pretensão de acumular “conteúdos” na mente da criança. É óbvio que não há operacionalidade sem conteúdo. Seria operar no vazio.
Um grupo de professores de matemática do Rio de Janeiro, reunido para uma pesquisa (pedagogia experimental) durante quatro anos, recolheu as provas de maiores notas de um grupo de alunos, reaplicando-as aos mesmos alunos nos anos seguintes. O aluno tentava responder de novo a prova em que tirara a nota máxima no ano anterior. As crianças que tinham tirado nota 8, 9 ou 10 nas provas das primeira séries, e que continuavam tirando notas altas nas séries seguintes, baixavam drásticamente os resultados obtidos nas provas reaplicadas. O aluno da quarta série praticamente tirava zero na prova em que tinha tirado dez na primeira série. O ensino da matemática, como se vê, só tinha servido para fazer as provas do momento. Os conhecimentos desapareciam na medida em que os alunos subiam nas séries escolares! Estes resultados não surpreendem nenhum educador que conheça o que ocorre no sistema escolar. A aprendizagem é fugaz, desaparecendo quando cessa a coação (ameaça de exames). E ninguém grita que “o rei está nu”! Duvidamos que no curso de formação de magistério, no mestrado, no doutorado, estes fatos tenham sido analisados! Verdadeira escamoteação da realidade pedagógica, para onde vai ser remetido o noviço! Tudo o que é “ensinado” na escola é praticamente esquecido. Qualquer um pode constatar este fato em si mesmo. Quando vejo a ferocidade da mãe-auxiliar, que rasgou a prova do meu neto, pergunto-me: por que tanta braveza no exercício policial da função, se tudo vai ser esquecido?!
Em matéria de hábitos, de habilidades, de reflexos condicionados, somos todos especialistas. Só conservamos na memória ou como automatismo o que diz respeito ao nosso trabalho, às nossas preocupações, ao nosso hobby: a matemática, a química, a história, a física que nos ensinaram (e que lindas provas coladas fizemos) desaparecem de nossa mente. Sendo o homem um animal criativo, precária é a sua capacidade de memorização e de conservação de hábitos. Daí ter a humanidade, em todos os tempos, buscado meios de memorização maquinal (robô atual). Os antigos veneravam os velhos porque se transformavam nos guardiães das lendas e das memórias da tribo. A morte de um ancião era como o incêndio da biblioteca de Alexandria!... Não havia outra maneira de se preservar a tradição … até que a humanidade descobriu a escrita. Nesse dia, os velhos perderam seu prestígio. Começou o uso da memória mecânica (escrita). Daí para cá, a humanidade vem inventando variados meios (hoje eletrônicos) de guardar as informações: fotos, filmes, gravadores, computadores, satélites, bancos de dados).
Ora, a escola sempre foi um local em que se tentou gravar informações na mente das crianças, começando-se com a recitação (aula expositiva ou conferência). Com os gravadores, acabou a conferência (aula expositiva) e a memorização (estudo, decoração). A escola assumiu seu verdadeiro papel: continuar o processo embriológico do útero, isso é, estimular o desenvolvimento físico, verbal, mental (educação pela inteligência). Os dados, estão armazenados em bancos de dados. O problema é operacionalizá-los. O objetivo é transformar a cachoeira selvagem em usina hidroelétrica, é fazer o átomo produzir energia, é fazer o computador “computar”. Para isso servem as próteses que o homem inventou (microscópio e o telescópio)
Um exemplo patético e histórico: o grande momento da escolaridade era a “alfabetização” (acesso aos conhecimentos arquivados nas bibliotecas, daí a mística que em torno dela se criou). Mas a escola tradicional sequer conseguiu criar o hábito da leitura. Uma massa enorme de alfabetizados, inclusive doutores, jamais lê! O número de livros editados no Brasil, para uma população de quase 150 milhões de indivíduos, diz bem o que a escola conseguiu em matéria de alfabetização. O mais trágico é termos voltado à oralidade!!! Milhões de pessoas analfabetas assistem às novelas de televisão, que dispensam a arte de ler! Certa vez propusemos à UNESCO vasta pesquisa internacional para saber o que fica na mente do homem comum, de tudo o que a escola ensinou (poder-se-ia repetir a experiência do grupo de matemática, aplicando as mesmas provas que as pessoas realizaram na escola onde estudaram). Depois disso, numa assembléia internacional, decidir-se-ia se vale a pena investir tanto em educação. Um curso de formação de professores (do segundo grau ao doutorado) deveria começar, sempre, com uma bateria de provas em uso no sistema escolar, para se verificar o que os candidatos ao magistério guardam dos seus longos anos da escolaridade. O resultado é previsível: mais de 90% dos programas terão que ser esquecidos. A constatação sobre essa bizarra constatação serviria de “pano de fundo” na formação do professor: se 90% dos programas ensinados vão ser esquecidos, de que vale o esforço de mestres e alunos durante anos e anos? Afinal, qual deve ser o currículo escolar? Que “conteúdos” ensinar? Por que (quase) tudo é esquecido? Os universitários sabem que quase tudo o que aprenderam para o vestibular desaparece logo após o exame (permanecem apenas fragmentos desarticulados, sem nenhuma utilidade). As noitadas que precedem os exames fornecem conhecimentos que duram apenas um momento. E assim é feita a vida escolar: “aprende, esquece” … até o dia em que o diploma encerra o processo, consagrando o portador de um conhecimento que já não possui.
Todo mundo sabe que a atividade prática é que “forma”, verdadeiramente, os profissionais. Se levássemos em consideração a perda de mais de 90% do ensino, mudaríamos totalmente os programas e as práticas escolares; O que fica desta atividade? As operações mentais que o próprio aprendiz constrói e que são irreversíveis. Eis aí a finalidade da escola: provocar a construção das operações mentais (para isto servem os “conteúdos”. Não nos preocupemos com informações e habilidades. Os meios de comunicação de massa estão saturando o meio sócio-cultural com informação, e os robôs estão assumindo as habilidades. Hoje, discute-se até a validade da profissionalização frente a turbulenta mudança tecnológica, pois a profissionalização pode levar a um beco sem saída (extinção das profissões). A natureza do ser humanio é a polivalência de suas capacidades, seu poder criativo e sua tendência às mudanças. Os animais (instinto) é que são especialistas. O homem não tem instinto. Um homem inteligente pode exercer qualquer função, pois é próprio da inteligência resolver problemas.
Hoje, como ontem, o sistema escolar vem fracassando na inglória tentativa de “fixar” informações na mente das crianças e treiná-las em certas habilidades. Ora, só uma coisa é fundamental: usar a inteligência. A preocupação da escola tradicional em criar hábitos, em fazer memorizar, em transmitir um “saber sistematizado” é uma traição à natureza do homem.
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quinta-feira, 30 de junho de 2011
Gulliver na praia de Lilliput
Cada geração – sendo nova etapa evolutiva da humanidade – deve ser estimulada a fazer novas regras, livrando-se das antigas: só as aranhas repetem, milênio após milênio, a mesma regra (teia) de viver...O futuro pertence aos jovens.
Tomemos aquele indivíduo que vai ali passando na rua. Parece um homem só. Faz parte da multidão. Percebe-se, contudo, que não tem afinidades com ela. Junta-se ao aglomerado que olha no alto o satélite americano, mas logo segue caminho, sem deixar marcas nos companheiros que ficam contemplando o céu. Nada mais solitário que um homem que caminha sozinho...
Tudo engano. Aproximemo-nos dele. É simples elo donde partem e onde vêm terminar inúmeras cadeias: está amarrado pela família, pelos irmãos, pelos parentes. Muito do que faz é provar ao pai que não é o vagabundo que ele julga. Admira o tio e quer imitá-lo. Já tem esposa e filhos que limitam e orientam sua conduta. O emprego (de que não gosta) decorre de suas responsabilidades familiares. Odeia o chefe, inconscientemente, e inveja o companheiro que progride sem esforço. Usa o emblema do clube para sentir-se sócio de outros, para não ser tão só. O talhe de sua roupa tirou-o de figurino francês que garantia aumento de ‘’personalidade’’ a quem a usasse. Freqüenta a roda de amigos de escola e procura dar satisfação aos que perguntam como vai. Parece Gulliver amarrado na praia de Lilliput por milhares de fios invisíveis...
Se ele fizesse o mapa de suas ‘’ligações’’, dos fios que o prendem ao próximo, veria quanta dependência existe em sua pretensa liberdade. A sociedade com todos os seus grupos pesa sobre seus ombros, impedindo que seja o que deseja, realmente, lá no fundo do coração. Foi levado pela vida como a casca de noz pela corrente... Um dia resolve fazer uma excursão sozinho para ver se se livra do constrangimento dos outros. Mas, leva consigo seu ‘’aquário’’: o grupo está agora em seu interior.
Disseram-lhe, desde criança, que ele era só. Que podia fazer da vida o que bem quisesse. Contudo, percebe agora que para dar um passo tem que primeiro remover montanhas. Tem de converter meio-mundo para poder expressar uma idéia sem ser linchado pela multidão enfurecida.
E não foi treinado para viver assim dependente. Para viver em grupo. Toda sua educação baseou-se em suas forças individuais. Em sua ‘’vontade poderosa’’. Em sua autodeterminação. Sente o grupo não como libertação, mas como pesada carga que o esmaga e lhe tira a liberdade. A culpa foi dos pais e dos educadores que o educaram para o individualismo, para não reconhecer um fato básico da natureza humana: o homem é um animal social. Precisa do grupo para realizar-se, como precisa de oxigênio para não morrer asfixiado. Daí pedir-se a organização da vida escolar na base de clubes, de associações, de equipes de estudo, de discussão em grupo. A classe não é aglomerado heterogêneo de adolescentes, cujo ponto de convergência único e inapelável seja o professor na cátedra. A classe tem (quer queira ou não o educador) sua vida grupal. Em vez de lutar contra isso, deve-se aproveitar a organização natural determinada pela via e trabalhar com ela. Professor não é rei do terreiro, mas o orientador que caminha, de grupo em grupo, procurando ajudar e dinamizar a atividade nascente e espontânea. Cada aluno é um elo de uma complexa corrente de relações.
A aprendizagem fundamental é aprender a influenciar no grupo e a não ser, apenas, uma vítima de pressão social: aprender a ser autônomo junto aos demais. Aprender a estabelecer regras de convivência.
Numa escola assim, aprenderia o jovem a ser irmão de todos e participante de grupos: os liames que o aproximam das demais pessoas não lhe pareceriam cadeias, mas canais por onde passa, de um para o outro, o amor de que se faz a felicidade. Em vez de contorcer-se em fúria para quebrar as amarras, veria nelas sua completação natural e a fonte de seu enriquecimento espiritual. O cristianismo tem no amor ao próximo o seu grande mandamento: mandatum novum do vobis. Contudo – mesmo nas escolas cristãs – cultiva-se o individualismo e a competição desenfreada, fazendo-se uma pedagogia de acordo com o modelo capitalista de ‘’livre concorrência’’ e da superação do adversário. De nada vale a ‘’pedagogia do amor’’ a que se referem os tratados, se a estrutura escolar se baseia na competição. O amor exige também aprendizado. Não são as exortações que levam o homem à solidariedade. É no íntimo convívio do grupo que descobre-se o ‘’próximo’’. Educar-se não é aprender a obedecer as regras pré-fabricadas: educar-se é aprender a fazer regras cooperativamente.
Conflitos no Lar e na Escola – Teoria e prática da dinâmica de grupo segundo Piaget.
Editora: ZAHAR
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