Mostrando postagens com marcador educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador educação. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de outubro de 2013

PROFESSOR - ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA... - PARTE 2

Livro: PEDAGOGIA: REPRODUÇÃO OU TRANSFORMAÇÃO
Lauro de Oliveira Lima Editora Brasiliense. Primeiros Voos Nº 9 /1982
PROFESSOR - ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA...
Segunda parte
Na raiz da palavra educação está o étimo dux, ducis, que em latim significa condutor, general, imperador, donde os franceses denominarem o magistério de mandarinato (não se deve esquecer que educere em latim significa, também, puxar a espada). O termo mestre ligado a dominus = dono da casa) é derivado de magis (mais) indicando o especialista, mestre-de-obras, contramestre (maître penseur) que conduz, na obra, os que não têm perícia. A palavra professor (do latim profieri, ir na frente gritando, ter uma profissão) lembra o procedimento dos vaqueiros que conduzem a manada aboiando (o aboio é uma espécie de melopeia sem palavras, parecida com o cantochão, cuja função é embalar o gado tangido através das veredas das caatingas). Lente, (lector, em latim) era, na Idade Média o indivíduo que lia para os alunos analfabetos (não havendo livros, não havia interesse em aprender a ler) os pergaminhos e os papiros, religiosamente guardados na biblioteca da universidade. O lente terminava por decorar o texto, passando a recitá-lo de cor, prática que veio até os nossos dias e que parece muito mais “brilhante” que as que usam ainda a sebenta, hoje transformada (sic) em “fichas de consulta” ou em retroprojetor... O professorado não tomou conhecimento da descoberta do poder multiplicador da imprensa e seus derivados (mimeógrafo, gravador, xerox, etc.) continuando a expor, oralmente, lições como faziam seus companheiros medievais que só dispunham de recitação. Desta forma os alunos não chegam sequer a aprender a ler... Instrutor (instruere), era entre os romanos, aquele que punha o exército em ordem de batalha, motivo talvez por que se reservou o termo para os professores de educação física e para os mestres de ofício. O termo mais comum, hoje em dia, para o processo pedagógico é ENSINO, tendo-se abandonado a expressão EDUCAÇÃO. Ensinar (do latim, in signum) significa “dar ou colocar um sinal”, cunhar ou assinalar algo, ato parecido, grosseiramente, com a atividade dos pecuaristas que marcam com ferro em brasa sua criação (e note-se que criação e criança têm a mesma etimologia. A diferença entre o “assinalamento” (marcação) do gado e o “ensinamento” (educação da criança) é que, em vez de ferro em brasa, os professores marcam os educandos com medalhas, notas e diplomas... É que a educação deixou de ser “criação” (nos dois sentidos do termo) para ser “diplomação”. O diploma é, precisamente, o documento que “assinala” (dá um privilégio) novidade histórica que só aparece no sistema escolar quando se torna mais nítida a divisão da sociedade em classes (o diploma passou a funcionar como “sinal” – ensino -  de “nobreza”). Mas só as autoridades tradicionais podem dar diploma (privilégios), donde a expressão catedrático aquele que senta na cadeira (cátedra) como imperador. Já não se trata, pois, de conduzir a tropa (educere), pois a guerra acabou mas da distribuição de benefitia (privilégio) feita pelo suserano, segundo seus caprichos (e como são caprichosos os professores, cada um com suas idiossincrasias). Como se tornam petulantes e enfadados quando estão certos do seu poder! Parecem o imperador, no circo, decidindo com o polegar para baixo quem deve morrer... Aprender (aptendere) é “pegar no ar” algo que foi jogado, como se faz quando alimentam-se os cães: joga-se o naco de carne para ser abocanhado, num pulo pelo animal. O professor joga, também, o “ensino” no ar, e o aluno que “apreenda” (aprenda) se quiser e como puder... Nenhuma semelhança com a mãe que ensina o filho a andar e/ou com o mestre que ensina o ofício ao aprendiz: os exames garantirão a eficiência do conferencista...
Através de todos os tempos e em todos os lugares, o professor foi sempre um tiranete que, inclusive, podia punir fisicamente seus discípulos, isto é, aqueles que estão sendo disciplinados (em latim, disciplina significa tanto ordenação como a “matéria” que se ensina). Se perguntarmos aos professores o que mais esperam de seus alunos, responderão uníssonos: respeito (e respeito, em latim, significa olhar para trás, demonstrando medo) quando seria de esperar-se que preferissem ser amados pelos alunos. A suprema ofensa dos alunos aos mestres é desrespeitá-los, isto é perder o temor a eles e passar a trata-los como parceiros. A virtude que mais se caracteriza é a autoridade, ato de tomar posse de algo ou de alguém. A hipótese seria que se estabelecesse um cordão umbilical entre o aluno e o mestre (aluno significa, em latim, aquele que é alimentado). Mas como amamentar um ser que nos teme?
Mais que conhecimento da matéria, o mestre exige do aluno bom comportamento (bem-comportado não é só aquele que transporta coisas com cuidado, mas também aquele que está “parado no porto” ou “por trás das portas” notando-se que, modernamente, a palavra comporta significa imensas placas de ferro que impedem o fluxo das águas de uma represa.)
Todos os ditadores têm, invariavelmente, cuidado com a “educação” dos jovens (meio de perpetuar sua ditadura) introduzindo no curriculum, sempre, esta disciplina denominada “moral e civismo” espécie de RDE (regulamento disciplinar do exército) para as novas gerações. A rebeldia é a suprema falta para os tiranos, e o bom “comportamento”, o objetivo final da educação, donde deve ser conduzida por um capataz. O professor foi sempre um chefete ou cacique com a agravante de exercer seu poder sobre crianças, o que se assemelha caricaturalmente à autoridade do EUNUCO sobre as odaliscas do harém do sultão. Muitos professores agem como condottiere ou führers frustrados (como os síndicos dos prédios de apartamentos) que exercem sua vocação em situação de “faz-de-conta” (“cachorro em curral de bezerros” - como diz, pitorescamente, um romancista conterrâneo). Em vão alguns educadores propuseram, há muito tempo, a adoção do self-government república escolar ou governo autônomo como método de disciplina: estes mandarins jamais abdicariam deste seu reinado de Gulliver no país dos anões...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Alunos analfabetos


Frei Betto
No primeiro semestre deste ano, aplicou-se a Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização) em turmas de alunos que concluíram o 3º ano do ensino fundamental, em todas as capitais do país.Uma iniciativa do movimento Todos pela Educação com o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

O resultado é alarmante. Constatou-se que 43,9% dos alunos são deficientes em leitura e 46,6% em escrita. Ou seja, são semialfabetizados. Não captam o significado do que leem e redigem uma simples carta com graves erros de sintaxe e concordância.

Quanto à leitura, quase metade (48,6%) dos alunos da rede pública correspondeu ao resultado esperado. Na rede de escolas particulares, o desempenho foi bem melhor: 79%. No item escrita tiveram bom resultado apenas 43,9% dos alunos da rede pública. Na rede particular, 86,2% dos alunos se saíram bem em redação.

Os índices demonstram que, no Brasil, a desigualdade social se alia à desigualdade educacional. Alunos da rede pública, oriundos, na maioria, de famílias de baixa renda, não trazem de berço o hábito de leitura.Seus pais possuem baixa escolaridade e o livro não é considerado um bem essencial a ser adquirido, como ocorre em famílias de renda mais elevada.

De qualquer modo, é preocupante o fato de alunos, tanto da rede pública quanto da particular, não atingirem 100% de alfabetização ao concluir o 3º ano do ensino fundamental. O que demonstra falta de método de alfabetização, embora esta seja a nação que gerou Paulo Freire.

Uma criança que, aos 8 anos, tem dificuldade de leitura e escrita, sente-se incapaz de lidar com os textos de outras disciplinas escolares, o que prejudicará seu aprendizado. Uma alfabetização incompleta constitui um incentivo ao abandono da escola ou a uma escolaridade medíocre.

É hora de se perguntar se a progressão automática, isto é, fazer o aluno passar de ano sem provar estar em condições, é uma pedagogia recomendável. Com certeza, no futuro, o adulto com insuficiente escolaridade não merecerá aprovação automática em empregos que exigem concurso equalificação.

Priscila Cruz, do Todos pela Educação, frisa a importânciada educação infantil (creches, jardim da infância etc.) para dar à criança uma boa alfabetização. Para que se desperte na criança a facilidade de síntese cognitiva é importante que ela comece a ouvir histórias ainda no ventre materno.

O Brasil é um país às avessas. A Constituição de 1988 cometeu o erro de incumbir a União do ensino superior, o estado do ensino médio, e o município do ensino fundamental. Ora, uma nação se faz sem educação. E a base reside no ensino fundamental. Dele devia cuidar o MEC.

Nenhum governo implementou, ainda, a revolução educacional sonhada por Anísio Teixeira, Lauro de Oliveira Lima, Paulo Freire e tantos outros educadores. Como acreditar que apenas 4 horas de permanência na escola são suficientes para uma boa educação? Por que os alunos não permanecem de 6 a 8 horas por dia na escola, como ocorre em tantos países?

No Brasil, 10% da população adulta são considerados analfabetos. No Chile, 3,4%. Na Argentina, 2,8%. No Uruguai, 2%. Em Cuba e na Bolívia, 0%.

Outros fatores que contribuem para a semialfabetização são o desinteresse dos pais pelo desempenho escolar do filho e o longo tempo que este dedica à TV e a navegar aleatoriamente na internet. Nessa era imagética, há o sério risco de se multiplicar o número de analfabetos funcionais ou de alfabetizados iletrados, aqueles que sabem ler, mas não interpretar o texto, e muito menos evitar erros primários na escrita.

O governo deve à nação uma eficiente campanha nacional de alfabetização, inclusive entre alunos dos 3º e 4º anos. Para isso, há que ter método. Há vários. Quem se interessar por um realmente eficiente, basta indagar do deputado Tiririca como ele se alfabetizou em dois meses, a tempo de obter seu diploma na Justiça Eleitoral.

[Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto – autobiografiaescolar” (Ática), entre outros, http://www.freibetto.org- twitter:@freibetto.
Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reproduçãodeste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, semautorização do autor. Assine todos os artigos do escritor e os receberádiretamente em seu e-mail. Contato – MHPAL – Agência Literária(mhpal@terra.com.br)].

domingo, 2 de outubro de 2011

O HOMEM DE UM LIVRO SÓ




Extraído do livro
PARA QUE SERVEM AS ESCOLAS
Lauro de Oliveira Lima
Rio de Janeiro, RJ : VOZES 1995

Samir Curi Mesarani (que descobriu como ensinar redação), diz o seguinte em um tablóide: “(...) O livro didático, de modo geral, é um livro feio, mal escrito e mal desenhado, mediocremente impresso, um verdadeiro objeto “kitsch”, brega, (...) um produto rastaquera de uma copiosa indústria, alegando-se que “é disto que os professores gostam. (...) Nele não há nada de novo, nem de coerentemente velho. (...) Adotado por um mediador, como se fosse uma receita médica. (...) Se o professor não é oligofrênico, de tanto ler certos livros, acaba ficando. (...) A escola é, sabidamente, uma defasada agência de informação …”.
Se um marciano levasse da erra um “livro didático” para avaliar o nível mental dos terráqueos, seus superiores certamente chegariam a conclusão de que o ser humano, usando esse tipo de instrumento didático, é débil mental!... Não se sabe por que as editoras vomitam anualmente (o livro didático dura um ano letivo) este montão de estupidez mal impressa e mal encadernada, o único livro que a maioria dos alunos jamais usará. Por que não entregar aos alunos lindos e modernos manuais que eles guardarão e consultarão par ao resto da vida? Em algumas escolas, no final do ano letivo, os alunos picam os livros didáticos e comemoram a passagem do ano com esse tipo de confete de segunda classe.
O livro didático é bem a mostra gráfica do baixo nível do sistema escolar. O MEC/FAE (Fundação de Assistência ao Estudante), PLI-DEF (Programa do Livro Didático do Ensino Fundamental) comprou, há algum tempo, a sucata existente nos porões das editoras, toneladas e toneladas de refugo, para distribuir às escolas, num torpe conluio com essa indústria, que se alimenta da inautenticidade do sistema. Certa vez, na década de 1950, o MEC mandou traduzir um excepcional manual didático americano de física e ciências naturais e distibuiu-o pelo sistema escolar. Ainda hoje, seus possuidores  conservam como relíquia, pois os bons livros não se tornam obsoletos. Os alunos deveriam receber uma gramática, um livro de biologia, um de física, um de aritmética, etc.,  de alto nível científico, solidamente encadernados, para durar a vida toda. Em vez disso, o MEC adquire da indústria corrupta do “livro didático” manuais fragmentados, arcaicos, cheios de erros, sem ilustrações, sem inspiração de atividades. Nem se sabe porque são denominados “didáticos”. É um complô entre as autoridades da educação e este tipo especial de livreiro. As editoras de livros didáticos não se confundem com as demais casas editoriais, incapazes de participar desse atentado contra milhões de crianças indefesas. Os livros didáticos são impostos pelas escolas. É inegável que os professores também participam dessa máfia corruptora. de outra forma, já teriam sabotado esse tipo de material, que denuncia a estupidez dos autores, dos editores e dos professores que os utilizam.
Recentemente, tem aparecido estudos e pesquisas sobre o livro didático, sobretudo a respeito dos preconceitos que eles veiculam contra negros, mulheres, pobres, pregando uma falsa aristocracia pecuniária e um fascismo subliminar*. O mais gritante é o anacronismo dos livros didáticos, incapazes de incorporar as conquistas científicas, já não digo dos últimos anos, mas pelo menos do último século (os livros didáticos são cópias, reprisadas e reimpressas ao infinito, de manuais estrangeiros arcaicos). O normal seria que , a cada ano, o “tratado” recebesse um suplemento (como fazem as enciclopédias), atualizando as informações nele contidas. O contrário é o que acontece: a editora não permite modificações no texto, para reaproveitar os fotolitos, há anos arquivados nas prateleiras. Como o “livro didático” vai passar pelas mãos de milhares de professores e alunos, as editoras poderiam sugerir prêmios para quem sugerissem modificações que aperfeiçoassem continuamente estes instrumentos de trabalho.

_______________________________________
* Vide FREITAG, B et al. O Livro Didático em Questão (S. Paulo, Cortez), com muito material para a crítica.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011


(Carta enviada por Odorico Bemvindo para o Professor Lauro de Oliveira Lima, em 28 de setembro de 2011 - Venezuela)



Oi Lauro, desculpa a tietagem mas é bem bom falar contigo ainda que seja virtualmente. Pois bem, leio teu escrito sobre a luta inglória contra o robô e lembro das nossas reuniões n’A Chave, tuas aulas, enfim, fico aqui de longe pensando no porquê tardam tanto as decisões que se devem tomar na educaçao, depois de tanto tempo, tanta advertência. Decisões que - aqui entre nós - já deveriam haver sido adotadas há muito tempo, inclusive já deveriam ser consideradas como temas obsoletos para discussão.

Mas, não, elas seguem aí e o professor segue como objeto de 2ª. classe, desprezado e sem a  mínima condição sequer para entender seu papel neste mundo e muito menos para entender sobre pedagogia. Nem a sociedade pede, nem ele pede para ser o que deve ser. Nem a sociedad sabe, nem ele sabe o quê deve fazer ou como atuar frente aos alunos. Nem a sociedade exige, nem ele exige estar onde devem estar a educação e os professores.

Por quê permitimos isso justo num momento em que vemos tantas necessidades que inclusive deixam os cientistas de cabelo em pé ante prováveis consequências de ordem ambiental de suma gravidade? E o pior é que os que resolvem gritar contra esse estado de coisas, são imediatamente acusados de loucos, ditadores, palhaços, e outras jóias.

A mídia imediatamente se compactua com essas vozes que tentam impedir o avanço do ser humano e jogam perigosamente a favor do insólito, utilizando a mentira, e até mesmo a ameaça. Essas ameaças são diretas ou subliminais, algo assim como um bullying social, onde o que é de vanguarda passa a ser um babaca ou algo pelo estilo. Melhor ficar calado.

Então a gente revisa tudo isso e se pergunta novamente por quê isso, por quê ese freio, por quê tal idiotice? Se o momento é um momento onde tudo tem como objetivo o financeiro, o econômico; num tempo onde os paradigmas - todos eles – são elaborados para permitir que se destaque esse lado financeiro/econômico, então a educação (que está metida nesse saco) também é vítima desses paradigmas, dessa cultura.

Parece, pois, que estamos numa roda infinita: sem a devida educação o homem não cresce (ou cresce muito pouco). E sem crescer o homem não se decide por melhorar a educação. Ou, pelo menos,  esse processo será bem, bem lento. E então, como saimos desse buraco? Pois já que o problema nasce devido a paradigmas econômicos, então por ali deve haver uma  saída. O neoliberalismo (capitalista) que é o carro chefe dos interesses econômicos atuais e por conseguinte dos tais paradigmas, pois deve ser substituído por outro que deve ser claro na sua proposta e ter entre elas seu compromisso com a educação.

O socialismo, que se vislumbra como essa alternativa apesar de ser uma teoria quase sem prática, apesar de quase não poder ser testado (pois igual que na área da educação, as outras áreas também estão com as mãos amarradas, por isso mesmo está errado dizer que tal país ou aquele outro foi ou é socialista. Ou seja, não há nem nunca houve um país realmente socialista), apesar de não poder demonstrar nada ainda, pode desde já propor alternativas que deverão ou deveriam gerar discussões que tivessem como objetivo ir melhorando e/ou aperfeiçoando a sociedade. Entre essas melhoras, claro está, se situam as melhoras referentes à educação.

Um abraço para ti, Lauro.
Odorico

sábado, 13 de agosto de 2011

A escola inútil...

FICÇÃO CIENTÍFICA: a disciplina para preparar o aluno para a vida.


<< ... as escolas dispensam, mais e mais, energias diversas preparando
os escolares para um mundo que já não existe. >>

   Não devemos esquecer que as crianças de sete anos que hoje entram na escola elementar terminarão seu curso superior às vésperas do ano 2000. Ora, todos estão de acordo (ver profecias dos futurólogos) que no ano 2000 a vida terá características profundamente diferentes dos hábitos atuais. A escola atual, pois, pode, perfeitamente, estar sendo um obstáculo intelectual à progressão acelerada da escola, por criar comportamentos incompatíveis com a forma de ser dos próximos 20 anos. Já não se pode dizer que a escola é uma "preparação para a vida", vez que só os profetas podem prever como será a vida das crianças que hoje entram nas escolas. Uma disciplina que hoje prepararia o aluno para a vida ... seria Ficção Científica! A tendência dos professores mais inteligentes e ousados é deixar os próprios alunos conduzirem o processo escolar sem grandes pretensões de "institucionalização". O que os alunos precisam para enfrentar o ano 2000 é da flexibilidade operatória dos seus esquemas de assimilação e não de respostas aprendidas (learning, dos americanos). Quanto menos hábitos intelectuais fixos e mais poder de adaptação à situação nova, mais preparado estará o jovem para a vida. Com isso rui toda a pedagogia da "exercitação" e do cultivo das "faculdades mentais" através  de repetições e fixação de soluções.

Retirado do livro: "Mutações em Educação segundo McLuhan"
Cosmovisão - VOZES - 18a. Edição (1985)

Lauro de Oliveira Lima - Edição 1 em 1971

domingo, 24 de julho de 2011

“JUSTICE EST FAITE’


A  rotina escolar foi montada, há séculos, Segundo o dogma do “pecado original” (sem vigilancia e coação o homem tenderia a degenerar): é a policia que impede que todos sejamos criminosos?!!!


Em latim, a palavra “comportamento” – tão usada nos colégios, hoje em dia – trazia a idéia de ação, de transporte, de movimento, de condução. A raiz  porta e porto não se associava a “fechar”, mas a “abrir”: porto – era o lugar de “abrigo” e não era uma prisão. A porta abria para a vida, não fechava, não continha, não enclausurava... Em vez de caminharmos para a liberdade, de então para cá, construímos a escravidão. O porto não é mais o abrigo para a nave desgarrada. É o lugar onde a alfândega cobra seus direitos. A porta não  é um convite aos irmãos  para que entrem em nosso lar, é o símbolo da separação, de nosso individualismo. Podemos acompanhar, pela semântica da palavra, a evolução (ou melhor, a involução) da idéia de comunicação, de irmandade, de liberdade. Comporta, por exemplo, e alguma coisa que contem, que separa, que limita. Abrir as comportas é libertar, coisa que causa arrepio na humanidade bem “comportada”. A civilização tem sido continuo construir de “comportas”, de “cortinas”, de separações, de privilégios, de grupinhos fechados, de “panelinhas”. A coisa pública, de pública tem apenas o nome. De fato, pequeno grupo entra nela e fecha a “porta”, enquanto o povo passa ao largo. Cada serviço público tem dono, que contrói pesadas portas em seus domínios, deixando abertos somente os canais através dos quais o povo sustenta, com os impostos, a sua vida parasitaria.
A escola arquitetada para servir a esse tipo de sociedade, tem como supremo dogma de validade o comportamento. Aquele aluno e brilhante, e estudioso, e alegre, e amigo dos companheiros, mas e mal comportado... Uma tragédia! Que pena!
Ser comportado é estar contido, serenamente, dentro das comportas! E não perturbar a quietude. Em cada escola, conforme a filosofia de vida que prevalece, conforme o temperamento autoritário ou liberal do diretor, conforme os  preconceitos e as idiossincrasias dos mestres, ser comportado é coisa inteiramente diferente. Um aluno transfere-se de um colégio para outro: tem que aprender a “se comportar” de novo, pois aqui as leis do comportamento são diferentes, o diretor e tolerante, os professores são mansos...
Cada escola tem sua própria forma. Aquele menino doentio, apático, mórbido, que esta precisando  de sacolejos  energéticos  para aprender a viver e a defender-se, tira sempre 10 (dez) em comportamento! Aquele outro vivo, tem iniciativas, experimenta condutas, erra, tenta ajustar-se a novas formas de vida, lidera, conduz os companheiros: apesar da simpatia que desperta, infelizmente, não pode tirar 10 (dez) em comportamento... Quanto mais sossegado, quanto mais  apático  (mesmo que essa apatia seja causada pela profunda verminose) mais credenciado esta o rapaz ou a moça para o dez do comportamento! Comportamento, evidentemente, é “não dar  trabalho ao educador”, e não exigir esforço de orientação, e ser  despersonalizado, tímido, cordato, abúlico. Que raça de homens estamos formando?
É de enrubescer o simplismo inconseqüente e primário com que certos educadores senteciam sobre a conduta dos jovens. Todas as frustrações do mestre transudam de seus veredictos com a ousadia irresponsável dos que desconhecem as verdadeiras dimensões da alma humana. Não e um julgamento que proferem: e vingança surda por não conseguir o controle absoluto de alguns rebeldes. Como há jovens que não mordem o pó da terra se rojam aos pés do domador... o ferrete de mau comportamento vinga o fracasso. E a moeda corrente nas escolas com que se paga a submissão cujo cambio oscila de acordo com a hepatite da direção...
Se perguntássemos, ex-abrupto, a esses Salomões o que e bom comportamento, talvez não soubessem dizer. O “código” e um amontoado individualista de preconceitos, muita vez evidente forma de compensação por evidentes  frustrações  pessoais. Quem sabe da complexidade infinita da motivações possíveis da conduta do ser humano, arrepia-se de espanto diante da tranquila infabilidade desses juízes ranzinzas e vingativos.Por vezes, quem decide sobre o comportamento dos jovens são macróbios enfezados para quem a cristalina gargalhada da juventude e ofensa imperdoável...
Os jovens possuem seus próprios padrões de conduta inacessíveis aos adultos. E preciso, pois, montar o processo de vida escolar de tal modo que não seja o arbítrio ressentido dos velhos que decida sobre o comportamento dos jovens, permitindo que eles próprios aprendam a se autodirigirem. E a esse processo que se da o nome de dinâmica de grupo. Dinâmica de grupo e um processo de organização livre do comportamento: comportamento e apenas um comportamento mutuo.
Lauro de Oliveira Lima
Livro Conflitos no Lar e na Escola
Cap. 16

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Um bebê na universidade

Infância acelerada – Envelhecimento precoce – Onde querem chegar? – know-how ou estruturas de pensamento? – A ‘’corrida ao pau-de-sebo’’ – Diploma ou revólver?

Depois do bebê de proveta, os cientistas conseguirão, um dia, abreviar o tempo de gestação para trinta dias? Por mais incômoda que possa ser a gravidez, as mães, em geral, conformam-se com este indispensável prazo biológico, não havendo noticia de que tenham tentado de alguma forma, apressar o ciclo de desenvolvimento do embrião. O mesmo fazem os agricultores: esperam, pacientemente, que a semente germine e a planta cresça com seu próprio ritmo (o agricultor, necessariamente, tem que aprender a ter paciência, esperança e previsão). Quando o crescimento biológico perde seu ritmo natural, transforma-se em “câncer”, deformando o projeto contido no código genético. O pecuarista conhece o tempo necessário para a cria crescer e os momentos de separá-la da mãe, de engorda, de venda, de produção. Tudo ocorre tranquilamente, de acordo com o tempo determinado pelo crescimento biológico.

Os seres humanos tentam acelerar a infância e retardar a velhice, mas não conseguem modificar a rotação da Terra...

Com o ser humano, de maneira estranha, logo que a criança nasce, inicia-se violenta pressão para que supere, rapidamente, suas etapas de crescimento. Ora, os biologistas verificam que, quanto mais longa a infância de um animal, mais feito ele é como adulto. Quando perguntavam a Piaget se se podia “acelerar” o desenvolvimento das crianças, ele respondia, invariavelmente, que “isto é um problema de americanos”. Segundo ele, os americanos estão obsessivamente preocupados em acelerar o crescimento das crianças ao invés de ampliar, o mais possível, os estágios de desenvolvimento e criar amplas bases para as etapas seguintes. Como o desenvolvimento é uma complexa construção (interação entre o organismo e o meio), quanto mais tranqüilo processo, mais ricos serão os resultados das combinações que ocorrerão. Algo parecido com a revelação progressivo de uma chapa fotográfica tirada com a câmera Polaroid: é preciso dar tempo para que as combinações ocorram e ampliem sua funcionalidade com a interação com o meio. Cada nova estrutura deve ser amplamente experimentada pela criança.

Há tempo próprio, e removível, para falar, rastejar, andar e aprender a ler: violar este ritmo implica em distúrbios mentais.

Quem trabalha com crianças pequenas, em escolas maternais e em jardins de infância, conhece a “corrida ao pau-de-sebo”. Enquanto a criança não aprendeu a ler, os pais toleram que a escola experimente os mais diversos métodos e que siga as teorias mais modernas. Mas quando chega a idade tradicional de alfabetização (entre 6 e 7 anos) os pais perguntam se tudo aquilo (a pedagogia) não é apenas brincadeira e diversão. É que a alfabetização é o primeiro know-how contabilizável, isto é, com valor econômico, numa sociedade competitiva. De repente, ficam angustiados, vigiando se a criança aprendeu não a ler... Daí pra frente, o problema é fazer a criança entrar na corrida curricular, transpor rapidamente o primário, entrar no ginasial e, finalmente, o mais cedo possível, enfrentar o vestibular. Transposta esta barreira, cessa a angústia: o garoto está equipado para a luta pela vida. Ninguém pergunta se obedeceram aos ritmos de amadurecimento, se a escola realmente deu oportunidade à estruturação mental, se a criança foi feliz durante esse período de crescimento. Todas as deformações possíveis e aí estão as logopedistas para corrigi-las.
A universidade é um processo de reflexão só acessível a adultos plenamente maduros.
A alfabetização nada tem a ver com o desenvolvimento da criança, sendo apenas um know-how altamente valorizado no mercado da competição (aprendizagem de um código que exige certos amadurecimentos fisiológicos e psicológicos que jamais são verificados). A entrada no curso ginasial (5.ª a 8.ª séries do 1° Grau), por exemplo, exige o amadurecimento das estruturas lógico-abstratas, em o que toda aprendizagem transforma-se em mera justaposição, que logo é eliminada por falta de estruturas de assimilação. A entrada na universidade só deveria ser feita depois de, digamos, 21 anos, quando o jovem tivesse plena maturidade para manipular a complexidade dos processos científicos. O resultado é uma chusma de doutorezinhos imaturos e semi-letrados, sem o mínimo poder de reflexão, com a cabeça cheia de coisas decoradas. Mas, os pais estão felizes de lhes ter fornecido o diploma, espécie de tacape com que enfrentarão os adversários na ‘’luta por um lugar ao sol’’. O resultado é semelhante ao que se obtém amadurecendo frutas à força, por processos artificiais... E para onde vão todos nessa corrida? Perde-se o sentido de viver a vida em troca de subir rápido no ‘’pau-de-sebo’’.

Temas Piagetianos - Lauro de Oliveira Lima
Março, 1981

sábado, 2 de julho de 2011

A fúria escolar da alfabetização


Não há neuróticos suficientes – A indústria dos métodos de leitura –Os bizarros nomes das letras – Pânico nas classes de alfabetização – Quem lê jornal no Brasil?
    Toda organização e planejamento do pré-escolar e do curso elementar (primário ou primeiro graus) giram em torno da alfabetização. Entretanto, a alfabetização (leitura e escrita) é um instrumento civilizatório artificial, empírico, arcaico e de alta complexidade matemática (baseia-se em permutas e combinações de letras e sílabas, mecanismo mental que só amadurece nas crianças em idade avançadas, quase no limitar das operações abstratas). Jamais se indagou que processos mentais estão em curso na psicogenética das crianças de seis/sete a dez/onze anos, período em que a escola tenta a ferro e fogo, com os mais bizarros métodos, alfabetizar as crianças.
    O investimento em alfabetização de crianças é ocioso, perdulário e demagógico.
    A compreensão do código da escrita/leitura exige altos níveis de desenvolvimento mental (um adulto, normalmente desenvolvido, pode aprender este código em algumas horas). Se logo após alfabetizada, a criança dispusesse de bibliotecas, livros, jornais, revistas, etc., a alfabetização abriria para ela um maravilhoso mundo de informações. Mas, não dispondo destes recursos, a criança não cria o hábito da leitura, conseguindo chegar à pós-graduação sem ler um livro seque, sem acompanhar os acontecimentos pela imprensa, sem penetrar no mundo da literatura (a revista popular de maior tiragem no Brasil não chegava a vender 500 mil exemplares, numa população de 120 milhões de indivíduos). Hoje, mais privilegiadas do que há 50 anos, as crianças dispõem de meios de informação abundantes, que dispensam, totalmente, a leitura. É o caso dos discos, fitas magnéticas, cinema, televisão, entre outros...
Em que idade, afinal, deve ser ensinada às crianças o pouco inteligente know-how da alfabetização? Há dois aspectos a considerar. 1) em que idade a leitura torna-se um instrumento indispensável para a progressão intelectual? ; 2) em que idade as crianças são capazes de manejar os mecanismos matemáticos das permutas e combinações? Importante, também, é saber se a escola consegue criar hábitos de leitura, sem o que todo o esforço massacrante da alfabetização é inútil. Basta observar a regressão que se verifica quando o know-how não é utilizado: as crianças que passam um ou dois anos nas escolas e não conseguem dar continuidade ao aprendizado são candidatas à desalfabetização. Como se vê, reina imensa balbúrdia em torno da alfabetização das crianças, talvez porque tudo é feito empiricamente, através de técnicas consideradas mágicas (não há base cientifica nos métodos empregados... e são centenas!).
Onde encontrar bibliotecas para os 20 milhões de crianças, que o Governo diz estarem matriculadas no primário?
Tudo começa com o ensino do alfabeto (a convenção mais absurda, aleatória e pleonástica que a humanidade já criou). Ensinam às crianças que o sinal F chama-se efe H chama-se ‘’agá’’ e assim por diante. Quando a criança se defronta com a palavra FOLHA, tende a lê-la com os nomes das letras que lhe ensinaram, e temos: Efe/O/Ele/Agá/A...É possível adivinhar como se lê FOLHA? Em geral, as crianças que aprendem os nomes das letras apresentam imensa dificuldade para aprender a ler, coisa que os alfabetizadores parecem não notar. É raro o alfabetizador que atenta para o fato de que o código da escrita é uma permutação/combinação de letras e de sílabas. Uma vez percebido (compreendido) o código, resta decorar as convenções gráficas. Hoje se sabe que existe um método de alfabetização ara cada nível mental (as crianças pre-operatórias aprendem a ler através de gestalten, por exemplo; os adultos de Paulo Freire aprendiam a ler em 40 horas)...
Há crianças que levam três a quatro anos para alfabetizarem-se. Paulo Freire garante que alfabetiza em 40 horas.
É lamentável o massacre das crianças na fúria de fazê-las aprender os seis sons do ‘’X’’. Lamentável, também, a profunda frustração das professorinhas que não conseguem ensinar crianças a ler. O resultado é desperdiçarem-se anos seguidos com esforço falaz de alfabetização, em detrimento da estimulação dos processos mentais operatórios. Provavelmente, a ‘’fúria escolar da alfabetização’’ deriva do fato de os professores só imaginarem a atividade escolar através do binômio leitura/escrita. Realmente, o que faria um professor comum, tradicional, se não contasse com a capacidade de leitura/escrita dos seus alunos. Um bom teste, de capacidade pedagógica seria verificar se o professor é capaz de ‘’dar aula’’ (sic) sem usar estes recursos. Ora, o desenvolvimento da inteligência nada (nada, mesmo) tem a ver com a leitura e a escrita. Está na hora de parar e reexaminar esta história de alfabetização. Está na hora de ensinar às professorinhas um mínimo de psicogenética. Por que não colocar nas escolas um especialista em desenvolvimento intelectual das crianças (um psicogeneticista). Está aí um imenso mercado de trabalho para os psicólogos que não encontram neuróticos suficientes.

Lauro de Oliveira Lima 
Temas Piagetianos - Editora Ao Livro Técnico
Junho, 1981

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Gulliver na praia de Lilliput



Cada geração – sendo nova etapa evolutiva da humanidade – deve ser estimulada a fazer novas regras, livrando-se das antigas: só as aranhas repetem, milênio após milênio, a mesma regra (teia) de viver...O futuro pertence aos jovens.

            Tomemos aquele indivíduo que vai ali passando na rua. Parece um homem só. Faz parte da multidão. Percebe-se, contudo, que não tem afinidades com ela. Junta-se ao aglomerado que olha no alto o satélite americano, mas logo segue caminho, sem deixar marcas nos companheiros que ficam contemplando o céu. Nada mais solitário que um homem que caminha sozinho...
             Tudo engano. Aproximemo-nos dele. É simples elo donde partem e onde vêm terminar inúmeras cadeias: está amarrado pela família, pelos irmãos, pelos parentes. Muito do que faz é provar ao pai que não é o vagabundo que ele julga. Admira o tio e quer imitá-lo. Já tem esposa e filhos que limitam e orientam sua conduta. O emprego (de que não gosta) decorre de suas responsabilidades familiares. Odeia o chefe, inconscientemente, e inveja o companheiro que progride sem esforço. Usa o emblema do clube para sentir-se sócio de outros, para não ser tão só. O talhe de sua roupa tirou-o de figurino francês que garantia aumento de ‘’personalidade’’ a quem a usasse. Freqüenta a roda de amigos de escola e procura dar satisfação aos que perguntam como vai. Parece Gulliver amarrado na praia de Lilliput por milhares de fios invisíveis...
             Se ele fizesse o mapa de suas ‘’ligações’’, dos fios que o prendem ao próximo, veria quanta dependência existe em sua pretensa liberdade. A sociedade com todos os seus grupos pesa sobre seus ombros, impedindo que seja o que deseja, realmente, lá no fundo do coração. Foi levado pela vida como a casca de noz pela corrente... Um dia resolve fazer uma excursão sozinho para ver se se livra do constrangimento dos outros. Mas, leva consigo seu ‘’aquário’’: o grupo está agora em seu interior.
               Disseram-lhe, desde criança, que ele era só. Que podia fazer da vida o que bem quisesse. Contudo, percebe agora que para dar um passo tem que primeiro remover montanhas. Tem de converter meio-mundo para poder expressar uma idéia sem ser linchado pela multidão enfurecida.
             E não foi treinado para viver assim dependente. Para viver em grupo. Toda sua educação baseou-se em suas forças individuais. Em sua ‘’vontade poderosa’’. Em sua autodeterminação. Sente o grupo não como libertação, mas como pesada carga que o esmaga e lhe tira a liberdade. A culpa foi dos pais e dos educadores que o educaram para o individualismo, para não reconhecer um fato básico da natureza humana: o homem é um animal social. Precisa do grupo para realizar-se, como precisa de oxigênio para não morrer asfixiado. Daí pedir-se a organização da vida escolar na base de clubes, de associações, de equipes de estudo, de discussão em grupo. A classe não é aglomerado heterogêneo de adolescentes, cujo ponto de convergência único e inapelável seja o professor na cátedra. A classe tem (quer queira ou não o educador) sua vida grupal. Em vez de lutar contra isso, deve-se aproveitar a organização natural determinada pela via e trabalhar com ela. Professor não é rei do terreiro, mas o orientador que caminha, de grupo em grupo, procurando ajudar e dinamizar a atividade nascente e espontânea. Cada aluno é um elo de uma complexa corrente de relações.
        A aprendizagem fundamental é aprender a influenciar no grupo e a não ser, apenas, uma vítima de pressão social: aprender a ser autônomo junto aos demais. Aprender a estabelecer regras de convivência.
        Numa escola assim, aprenderia o jovem a ser irmão de todos e participante de grupos: os liames que o aproximam das demais pessoas não lhe pareceriam cadeias, mas canais por onde passa, de um para o outro, o amor de que se faz a felicidade. Em vez de contorcer-se em fúria para quebrar as amarras, veria nelas sua completação natural e a fonte de seu enriquecimento espiritual. O cristianismo tem no amor ao próximo o seu grande mandamento: mandatum novum do vobis. Contudo – mesmo nas escolas cristãs – cultiva-se o individualismo e a competição desenfreada, fazendo-se uma pedagogia de acordo com o modelo capitalista de ‘’livre concorrência’’ e da superação do adversário. De nada vale a ‘’pedagogia do amor’’ a que se referem os tratados, se a estrutura escolar se baseia na competição. O amor exige também aprendizado. Não são as exortações que levam o homem à solidariedade. É no íntimo convívio do grupo que descobre-se o ‘’próximo’’. Educar-se não é aprender a obedecer as regras pré-fabricadas: educar-se é aprender a fazer regras cooperativamente.

Conflitos no Lar e na Escola – Teoria e prática da dinâmica de grupo segundo Piaget.
Editora: ZAHAR
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...