quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Imaturidade das Relações Heteronômicas


Artigo autoria Lauro de Oliveira Lima
extraído do livro "Escola Secundária Moderna" - Editora Forense Universitária
11a. Edição


1.
Quando as relações entre mestre e aluno são, simplesmente, de submissão (obediência, disciplina, ordem), a própria dinâmica psicológica de sobrevivência e independentização gera a oposição, que pode chegar a revolta. Toda a vida escolar, neste caso, tende a desenvolver-se em torno da “contenção” (obediência) desta resistência passiva (ou mesmo manifesta), desviando o processo escolar do objetivo de aprendizagem para um problemática conflitual de base puramente emocional. O trabalho em equipe coloca as relações “mestre x aluno” em bases inteiramente diferentes, tornando sem sentido  a oposição e quebrando o círculo vicioso de ação (mestre) - reação (aluno). O professor deixa de ser um “domador” para ser um perito.

2.
Enquanto o professor cujo processo didático se baseia na relação direta “mestre x aluno” (sem o intermediário do grupo) tem que, ele mesmo, provocar motivação, estimulação e controle, aquele que usa o trabalho de equipe tem, nele mesmo (no trabalho), seu instrumento espontâneo  de condução da vida escolar intensa e auto-regulada. O grupo é, intrínsicamente, dinâmico e ordenado, por caminhar para um objetivo que o justifique e por autocontrolar a ação individual de seus membros, para sobreviver como grupo. Cada membro do grupo representa um desafio saudável para os demais.

3.
No trabalho em equipe, o professor deixa de ser o “feitor”que mantém a disciplina com mão-de-ferro, por exigência do método expositivo, para ser  orientador que circula, de equipe em equipe, oferecendo ajuda e orientação e observando os pontos fracos de cada aluno. O próprio método descomprime a pressão que gera a revolta, o distúrbio e a indisciplina. A preocupação com a cooperação mútua utiliza as cargas emocionais no sentido positivo.

4.
O trabalho em equipe é o único que permite ao professor contatos individuais com os alunos, uma vez que fica grande parte da aula livre para acompanhar a atividade de cada um dentro da equipe. No  método expositivo, por exigência do próprio processo, terá que tomar a classe como “massa indiferenciada”, falsamente homogênea. No trabalho em grupo, o professor pode observar a produtividade de cada um.

5.
O trabalho em equipe é o único que permite ao professor verificar, automaticamente (sem necessidade de testes e provas), o progresso intelectual do aluno em cada momento da aprendizagem. Na aula expositiva, é imprevisível o que se passa no psiquismo do aluno que, só por hipótese, deve estar “atento e interessado” na exposição. É, portanto, um processo empírico e aleatório, sem controle real, o método expositivo. No trabalho em grupo, são eliminados os exames e as provas, recurso indispensável no método expositivo.

6.
Mesmo que o educador, habilmente, baixe ao plano vivencial do adolescente, jamais será aceito senão como um elemento de fora que tenta violar a intimidade grupal. Melhor faria ele agindo, indiretamente, através dos líderes naturais, sempre e necessariamente existentes em todo grupo. Não gostam os jovens de promiscuidade: querem o professor com o professor e orientador, embora como amigo também.

7.
Se os educadores deixam de reconhecer a vida grupal dos adolescentes, nem por isso deixa ela de existir com toda a sua exuberância. Se este fenômeno natural sofre pressão (como na vida individual), recalca-se e explode em forma de comportamentos anti-sociais, dominados pelo negativismo, a oposição e com tremenda dinâmica e coesão, como se observa nos “bandos” pré-delinquentes e nas “gangs” francamente anti-sociais. Antes que a coação leve os jovens para os grupos delinquentes, a escola usa em seu proveito a vida grupal.

8.
A falta de oportunidade de discussão e de intercâmbio revela a hipertrofia da chefia, o que leva à subordinação emocional e intelectual, preparando o indivíduo, no plano político, para a ditadura e, no plano intelectual, para o argumento de autoridade - oposto ao espírito científico. Sociologicamente, leva a comunidade ao imobilismo por falta de oportunidade de criação e reestruturação dos fatos, uma vez que a chefia hipertrofiada teme a discussão e impõe o argumento  de autoridade para se autoconservar. A liberdade física, emocional, intelectual e política precisa ser aprendida na vida cooperativa do grupo. Tudo no homem é aprendido, até a ser escravo ...

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

COMO MOTIVAR OS ALUNOS



(Capítulo 16 - Escola Secundária Moderna - Lauro de Oliveira Lima)

Motivação é o estado psicológico que corresponde ao sentimento de uma necessidade. Provém, portanto, de um desequilíbrio homeostático interno, cuja reequilibração se faz pela ação motora ou smbolizada (representada).
O único meio de provocar motivação é criar uma necessidade de ação, isto é, provocar um desequilíbrio homeostático orgânico ou psicológico. A dúvida e o problema são desequilíbrios motivadores da reflexão.
  1. Todas as técnicas de participação - apelando como apelam para a atividade - são, ipso facto, motivadoras. A participação gera a necessidade de equilibração (adaptação ao meio).
  2. Mas é preciso não esquecer que “nada é tão interessante por si mesmo”. Só o que corresponde à satisfação de uma necessidade se torna interessante. A necessidade pode ser, simplesmente, o exercício funcional. Todo esquema de ação (real ou simbólica) tende a funcionar, por definição, isto é, tende a “alimentar-se”.
  3. O exercício funcional puro e simples de um tipo de atividade psicológica de cresimento (primeiro a repetição, depois a representação, em seguida a verbalização, logo mais a inteligência motora, intuitiva e, finalmente, o pensamento operatório) é, em si, uma fonte de motivação. Técnicas didáticas que a elas correspondam causam prazer e são interessantes. Há, pois, um tipo de motivação para cada estádio do desenvolvimento infantil. Na primeira infância a repetição motiva mais que um problema.
  4. Um obstáculo a realização de um desejo ou propósito é sempre motivador, conquanto não pareça intransponível. Por isto as crianças gostam de adivinhações, enigmas, quebra-cabeças, etc. O correto é apresentar, pois, os temas em forma de situação-problema ou problema-piloto. A resistência do meio (se não for inibidora) aumentas as cargas energéticas de cada ação.
  5. Cuidar de criar nos alunos valores que norteiam sua atividade. O ser humano não se esforça sem objetivos. A própria valorização dos objetivos aceitos e poderosa fonte de motivação. Os valores são os reguladores afetivos da energética da ação.
  6. A futura profissão é interesse a que pode o professor relacionar as atividades didáticas com toda a probabilidade de êxito como força motivadora. Fazer com que os alunos relacionem sua disciplina com a futura profissão. O ser humano é capaz de motivar-se numa ação que tem caráter antecipador de uma adaptação futura.
  7. O casamento e a criação dos filhos é um interesse altamente motivador na adolescência. Se a disciplina tem algum ponto de relação com este aspecto vital, facilmente se entusiasmarão os alunos por ela. A nutrição, proteção e reprodução são necessidades básicas carregadas de alto poder motivador.
  8. Descobrir o ideal de cada aluno, seja ele qual for, e mostrar que a disciplina poderá ajudar a realiza-lo. Se ele se convencer disso, sua tarefa ficará grandemente simplificada. O ideal é um sistema de valores que informa todo o comportamento do indivíduo.
  9. Se você provocar a fome num indivíduo, facilmente fa-lo-á comer: faça o trabalho escolar parecer sempre uma necessidade para o aluno. O trabalho do professor é provocar a “fome intelectual”.
  10. Quando algo na atividade não parecer interessante para o aluno, transformá-lo em meio para atingir um fim desejável. Fazer as crianças se interessarem por livros, que elas aprenderão a ler. É um fato corriqueiro hoje as crianças aprenderem a ler sozinhas, na televisão.
  11. Se os alunos gostarem de você, meio caminho já foi andado. Se, além disso, tiverem admiração por você, sua tarefa de professor será um grande êxito. Os alunos não estudas as disciplinas dos professores que antipatizam. Para que você se mostre contente, elas criarão interesses por seus interesses (os do professor).
  12. Antes de querer ser um sábio, todo aluno deseja ser amado. Mostre que se interessa, pessoalmente, pelo aluno e ele, para não decepcionar, fará todo esforço necessário à aprendizagem. A aprovação do mestre pode ser um decisivo fator de motivação (equilíbrio afetivo).
  13. A Dinâmica de Grupo é a própria força magnética qu eda as linhas de conduta do adolescente. Trabalhe na base de equipe e esta extraordinária força motivadora ficará a serviço de sua disciplina. O adolescente vive a “idade da graça social”. As determinações do grupo são sagradas para ele (temor do isolamento, do “gelo”).
  14. O desejo de aprovação domina como força motivadora todo o crescimento psicológico. Esteja sempre atento a aprovar os bons resultados de seus alunos. Não olhe muito para as falhas. Descubra em tudo os aspectos positivos e dê toda a ênfase a eles. O elogio honesto e sincero é uma poderosa força motivadora desperdiçada pelos educadores.
  15. Seu otimismo e entusiasmo, facilmente contaminam a classe. Se não possui estas qualidades, poderá ser um elemento altamente pernicioso para a juventude. Não esqueça que os alunos (que acreditam em você) procuram adaptar-se ao seu estado de espírito.
  16. A emulação, principalmente de equipes, torna a atividade didática um desafio motivador. Mas não exagere esse recurso, que pode matar o espírito de solidariedade. A emulação cria a coesão no grupo frente ao outro grupo. A coesão dá poder motivador ao grupo.
  17. Prêmios e castigos são elementos de motivação, conquanto não seja indiscriminadamente usados e correspondam à verdadeira capacidade dos alunos. Mas não esquecer que são um desvio do objetivo principal, podendo adquirir força motivadora própria que bloqueia o objetivo verdadeiro que é a aprendizagem. O aluno pode aprender a só trabalhar mediante prêmio e castigo.
  18. Não há trabalho escolar sem atenção. Os recursos audiovisuais são poderosos elementos para garantir a continuidade do interesse e inibir a dispersão dos reflexos de atenção. Mas não se esqueça que eles não vão além dessa fase elementar (percepção concentrada). O encadeamento do raciocínio é que é o verdadeiro polarizador da atenção mental.
  19. A “escola”, como se apresenta atualmente é, pode-se dizer, uma “síntese da vida”. Daí a atividade didática ser, provavelmente, fonte de conflitos diante das solicitações da vida moderna. Os alunos consideram uma “morte-ficação” frequentar a “escola”.
  20. Diante do conflito “vida x escola” (atividade espontânea x atividade sistemática e dirigida), o aluno pode apelar para um dos conhecidos mecanismos de derivação, tornando-se um aluno-problema (transferência - repressão - racionalização - compensação - sublimação - regressão - devaneio - agressão - etc). Os mecanismos de defesa são o recurso que a mente usa para sobreviver...
  21. Não só aparecem com relação à escola e à vida conflitos de dupla atração, que são resolvidos com o esforço da motivação, como certas práticas escolares podem ensejar um conflito de atração-repulsão, profundamente traumatizantes para o adolescente, quando atividades didáticas estão associadas a castigos. a escola deve apresentar-se  como um estímulo ao desenvolvimento, jamais como um ascetismo.
  22. Cada atitude de derivação deve, pois, ser analisada para levar o aluno à auto-resolução do conflito, o que pode ser feito pelas técnicas de psicoterapia de grupo ou de grupo análise. Por vezes, quem deve mudar é a escola e não o aluno.
  23. Todos os recursos que provocam “reflexos de atenção” são úteis para provocar o interesse, mas são geralmente, de pouca persistência em sua manutenção. A atenção assim obtida não é suficiente como força motivadora. A atividade é que concentra a atenção e não os recursos que apelam para a percepção.
  24. As “opiniões” do meio social e do próprio aluno sobre o estudo, em geral, e a disciplina, em especial, são fator básico no processo motivador. Convença, pacientemente, o aluno da importância do trabalho que vai ser realizado. Se um camelô é capaz de convencer um adulto a comprar, você não consegue fazer seu aluno estudar?
  25. Enquanto o aluno não adquire atitude favorável ao trabalho escolar, todos os esforços do professor para faze-lo aprender são baldados. Criar no aluno disposição para aprender é condição indispensável de motivação. Motivado, o aluno dispensa o professor que se torna uma fonte de informação e orientação.
  26. Só uma adesão afetiva (gostar, por exemplo) ao trabalho escolar torna-o desejável. Não se pode fazer da aprendizagem uma mortificação. O esforço mortificante só se produz quando já se estabeleceu um poderoso ideal. Ora, os jovens não tem senão um ideal “difuso” que não os conduz a nenhum esforço específico, salvo os que estão ligados a sua própria funcionalidade (atividades lúdicas).
  27. Se um propósito firme e deliberado não se produz no aluno - isto é, uma auto-motivação intrínseca - as técnicas de motivação terão que apelar para forças circunstanciais e, principalmente, intermediarias, o que redunda num conflito entre os objetivos do professor e os objetivos do aluno.
  28. As resoluções (propósitos) tomadas em situação grupal tem muito maior força motivadora que as meramente individuais. Sempre que uma direção de atividade puder  ser obtida por resolução de grupo, não deve ser apresentada como “ordem”. Os alunos devem, pois, participar do planejamento escolar.
  29. Tudo que parece ordem e imposição cria um sentimento de revolta, mesmo que a conduta externa demonstre submissão. O adolescente quer aprender a dirigir sua própria vida, o que é um direito natural. A resistência deve ser vista como saudável.
  30. Não julgue que é perder tempo transmitir ao aluno os problemas da realidade em conexão com o trabalho escolar. O adolescente está profundamente interessado neles, uma vez que está na fase de integração social. Crie, emocionalmente, níveis de aspiração elevados, que eles se transformarão em forças motivadoras. Sempre que as aulas parecerem referir-se a problemas vitais ou sociais, a motivação surge espontâneamente.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Mutações ou projeções?


"A Educação era (até agora) tarefa relativamente
simples: bastava descobrir as necessidades da
máquina social e depois recrutar e formar o
pessoal que a elas correspondesse."

As projeções atuais dos futurólogos são insuficientes para prever o futuro, já que as transformações sócio culturais são mais "mutações" do que meras "projeções". Não há, pois, como "descobrir" as necessidades da máquina social do ano 2000. Que se deve, pois, ensinar às crianças que hoje estão nas escolas? Diante desta prespectiva são profundamente simplórias e até ridículas as atuais reflexões sobre programas e currículos. Educar já não é prever as necessidades sociais, mas preparar os jovens para o imprevisível. Toda idéia de treinamento a longo prazo é indébita (embora a curto prazo seja ainda a solução imediatista para um país subdesenvolvido). Ora, como se pode imaginar educação para o imprevisível? A resposta parece ser: desenvolver a capacidade de resolver problemas, o que minimiza a idéia de currículos e de programas, trocando-se a ênfase sobre os conteúdos para uma ênfase sobre as técnicas. O imediatismo pseudocientífico dos economistas que se referem á Educação como "necessidade do mercado de trabalho" e como "preparação dos recursos humanos", é insuficiente para interpretar a gravidade sociológica do fenômeno escolar no mundo que se está construindo. O know-how de hoje pode ser uma capitis diminutio para a adaptação do homem dentro de uma civilização em mudança: os velhos tem dificuldade de obter trabalho pela incapacidade de mudar de hábitos profissioinais. A "preparação dos recursos humanos" não pode ser mero preocesso de "linha de produção", vez que não se pode jogar fora o homem cujo know how obsolesceu...

Mutações em Educação segundo Mcluhan
Cosmovisão 1 - VOZES
18a Edição
Lauro de Oliveira Lima - 1985

sábado, 13 de agosto de 2011

A escola inútil...

FICÇÃO CIENTÍFICA: a disciplina para preparar o aluno para a vida.


<< ... as escolas dispensam, mais e mais, energias diversas preparando
os escolares para um mundo que já não existe. >>

   Não devemos esquecer que as crianças de sete anos que hoje entram na escola elementar terminarão seu curso superior às vésperas do ano 2000. Ora, todos estão de acordo (ver profecias dos futurólogos) que no ano 2000 a vida terá características profundamente diferentes dos hábitos atuais. A escola atual, pois, pode, perfeitamente, estar sendo um obstáculo intelectual à progressão acelerada da escola, por criar comportamentos incompatíveis com a forma de ser dos próximos 20 anos. Já não se pode dizer que a escola é uma "preparação para a vida", vez que só os profetas podem prever como será a vida das crianças que hoje entram nas escolas. Uma disciplina que hoje prepararia o aluno para a vida ... seria Ficção Científica! A tendência dos professores mais inteligentes e ousados é deixar os próprios alunos conduzirem o processo escolar sem grandes pretensões de "institucionalização". O que os alunos precisam para enfrentar o ano 2000 é da flexibilidade operatória dos seus esquemas de assimilação e não de respostas aprendidas (learning, dos americanos). Quanto menos hábitos intelectuais fixos e mais poder de adaptação à situação nova, mais preparado estará o jovem para a vida. Com isso rui toda a pedagogia da "exercitação" e do cultivo das "faculdades mentais" através  de repetições e fixação de soluções.

Retirado do livro: "Mutações em Educação segundo McLuhan"
Cosmovisão - VOZES - 18a. Edição (1985)

Lauro de Oliveira Lima - Edição 1 em 1971

domingo, 24 de julho de 2011

“JUSTICE EST FAITE’


A  rotina escolar foi montada, há séculos, Segundo o dogma do “pecado original” (sem vigilancia e coação o homem tenderia a degenerar): é a policia que impede que todos sejamos criminosos?!!!


Em latim, a palavra “comportamento” – tão usada nos colégios, hoje em dia – trazia a idéia de ação, de transporte, de movimento, de condução. A raiz  porta e porto não se associava a “fechar”, mas a “abrir”: porto – era o lugar de “abrigo” e não era uma prisão. A porta abria para a vida, não fechava, não continha, não enclausurava... Em vez de caminharmos para a liberdade, de então para cá, construímos a escravidão. O porto não é mais o abrigo para a nave desgarrada. É o lugar onde a alfândega cobra seus direitos. A porta não  é um convite aos irmãos  para que entrem em nosso lar, é o símbolo da separação, de nosso individualismo. Podemos acompanhar, pela semântica da palavra, a evolução (ou melhor, a involução) da idéia de comunicação, de irmandade, de liberdade. Comporta, por exemplo, e alguma coisa que contem, que separa, que limita. Abrir as comportas é libertar, coisa que causa arrepio na humanidade bem “comportada”. A civilização tem sido continuo construir de “comportas”, de “cortinas”, de separações, de privilégios, de grupinhos fechados, de “panelinhas”. A coisa pública, de pública tem apenas o nome. De fato, pequeno grupo entra nela e fecha a “porta”, enquanto o povo passa ao largo. Cada serviço público tem dono, que contrói pesadas portas em seus domínios, deixando abertos somente os canais através dos quais o povo sustenta, com os impostos, a sua vida parasitaria.
A escola arquitetada para servir a esse tipo de sociedade, tem como supremo dogma de validade o comportamento. Aquele aluno e brilhante, e estudioso, e alegre, e amigo dos companheiros, mas e mal comportado... Uma tragédia! Que pena!
Ser comportado é estar contido, serenamente, dentro das comportas! E não perturbar a quietude. Em cada escola, conforme a filosofia de vida que prevalece, conforme o temperamento autoritário ou liberal do diretor, conforme os  preconceitos e as idiossincrasias dos mestres, ser comportado é coisa inteiramente diferente. Um aluno transfere-se de um colégio para outro: tem que aprender a “se comportar” de novo, pois aqui as leis do comportamento são diferentes, o diretor e tolerante, os professores são mansos...
Cada escola tem sua própria forma. Aquele menino doentio, apático, mórbido, que esta precisando  de sacolejos  energéticos  para aprender a viver e a defender-se, tira sempre 10 (dez) em comportamento! Aquele outro vivo, tem iniciativas, experimenta condutas, erra, tenta ajustar-se a novas formas de vida, lidera, conduz os companheiros: apesar da simpatia que desperta, infelizmente, não pode tirar 10 (dez) em comportamento... Quanto mais sossegado, quanto mais  apático  (mesmo que essa apatia seja causada pela profunda verminose) mais credenciado esta o rapaz ou a moça para o dez do comportamento! Comportamento, evidentemente, é “não dar  trabalho ao educador”, e não exigir esforço de orientação, e ser  despersonalizado, tímido, cordato, abúlico. Que raça de homens estamos formando?
É de enrubescer o simplismo inconseqüente e primário com que certos educadores senteciam sobre a conduta dos jovens. Todas as frustrações do mestre transudam de seus veredictos com a ousadia irresponsável dos que desconhecem as verdadeiras dimensões da alma humana. Não e um julgamento que proferem: e vingança surda por não conseguir o controle absoluto de alguns rebeldes. Como há jovens que não mordem o pó da terra se rojam aos pés do domador... o ferrete de mau comportamento vinga o fracasso. E a moeda corrente nas escolas com que se paga a submissão cujo cambio oscila de acordo com a hepatite da direção...
Se perguntássemos, ex-abrupto, a esses Salomões o que e bom comportamento, talvez não soubessem dizer. O “código” e um amontoado individualista de preconceitos, muita vez evidente forma de compensação por evidentes  frustrações  pessoais. Quem sabe da complexidade infinita da motivações possíveis da conduta do ser humano, arrepia-se de espanto diante da tranquila infabilidade desses juízes ranzinzas e vingativos.Por vezes, quem decide sobre o comportamento dos jovens são macróbios enfezados para quem a cristalina gargalhada da juventude e ofensa imperdoável...
Os jovens possuem seus próprios padrões de conduta inacessíveis aos adultos. E preciso, pois, montar o processo de vida escolar de tal modo que não seja o arbítrio ressentido dos velhos que decida sobre o comportamento dos jovens, permitindo que eles próprios aprendam a se autodirigirem. E a esse processo que se da o nome de dinâmica de grupo. Dinâmica de grupo e um processo de organização livre do comportamento: comportamento e apenas um comportamento mutuo.
Lauro de Oliveira Lima
Livro Conflitos no Lar e na Escola
Cap. 16

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Inteligência: coisa desnecessária


‘’Só entre quem souber geometria’’ (Platão) – A necrofilia dos planejadores de programas escolares – Precisa-se de um embriologista -  A planta e os materiais de construção.’’

O código genético de cada espécie animal contém as características dos filhotes que vão ser gerados pelos pais. Evidentemente estas características não são, simplesmente, ‘’estampadas’’ como se se tratasse de um carimbo: ‘’os genes não agem como solistas, mas como orquestra’’ – diz um grande biólogo moderno. Toda construção física, química, biológica, psicológica, sociológica funciona como uma dinâmica de grupo: não existem fatalidades, mas probabilidades. Sequer trata de ‘’características’’, mas de caminhos (creodos), como a planta de uma futura construção. A planta só se ‘’realiza’’ (torna-se real) se o engenheiro dispuser de material adequado para a concentração da concepção do arquiteto. E ela interage com o meio: o material disponível no meio determina a possibilidade da maior ou menor realização integral do projeto. Material inconveniente inserido, por acaso, na construção pode determinar deformações, como no caso da talidomida, a droga que degenerou a gestação de milhares de crianças do mundo.
Tudo que não for brincadeira (atividade lúdica) é impróprio para criança.
Jean Piaget afirma que a construção das estruturas motoras, verbais e mentais da criança repete,  ipsis literis, o processo embriológico: o sistema neurônico representa a planta (código genético) e as estimulações do meio (provocações, desafios, situações) o material com que se vai construir o comportamento (motor, verbal e mental). ‘’A hereditariedade – diz ele – cria apenas possibilidades ‘’: a construção depende do meio. Ao longo dos primeiros dezesseis anos de idade, a criança vai desenvolvendo o sistema nervoso e pondo-o em relação com o meio, na tentativa de construir seu comportamento. Cada patamar de maturação nervosa cria novas possibilidades de relacionamento com o meio, podendo ocorrer que o meio não disponha de elementos que respondam ao leque de probabilidades criadas pela maturação nervosa. Neste caso, a maturação prossegue sem realizar todas as possibilidades abertas, com conseqüências para todo o posterior desenvolvimento (‘’é preciso malhar o ferro enquanto está quente’’ – diz W. James).
Os programas e currículos devem estar a serviço da maturação, jamais transformando-se em know-how.
A escola representa (devia representar) um tipo de meio altamente enriquecido – mais rico que o meio natural – a fim de propiciar o desenvolvimento das complexas operações concretas e abstratas. Numa tribo selvagem, o desenvolvimento ‘’natural’’ não vai além do pensamento simbólico gerador de lendas, mitos e magia. A escola representa uma maturação artificial (como enfurnar bananas para amadurecer).
Quanto mais jovem a criança (maternal, jardim e escola elementar), mais a escola deveria estar a serviço do desenvolvimento mental ( nesta idade não tem ainda valor o know-how da comunidade: profissionalização, por exemplo). Daí a atividade da criança ser ‘’aleatória’’ : totalmente lúdica, por oposição ao ‘’trabalho’’ dos adultos (quanto mais lúdicos os membros de uma comunidade, mais elementar é seu desenvolvimento mental, salvo se a  ludicidade se tornar operatória e planejada). Exemplifiquemos: a leitura é um know-how altamente sofisticado da sociedade, mas não corresponde a uma estimulação especifica – dirigida e adequada – para o desenvolvimento mental. Pois em grande parte a leitura não tem nada de inteligente, sobretudo ensinada por métodos de exercitação.
Ora, os administradores e o magistério primário dedicam um, dois, três anos à tarefa de habilitar a criança nesta destreza (substituição do código oral pelo código escrito, mesmo que haja muitas possibilidades de usar o mecanismo a duras penas  adquirido). Trata-se de imposição, puramente, sócio-cultural. Pais, autoridades, comunidade, todos cobram das crianças de seus/sete anos habilidades na leitura (alfabetização). Enquanto isto, deixa-se de lado a estimulação das operações lógico-matemáticas   e das operações infralógicas (geometria). Pode, portanto, ocorrer que a fúria alfabetizadora, dirigida contra crianças pequenas, seja fator de frenagem de seu desenvolvimento mental, se outras agências sociais não cuidarem, sistemática ou aleatoriamente, do progresso das estruturas mentais.
Os psicogeneticistas é que irão transformar, pela base, a escola elementar.
Até agora, os planejadores (ah! Os planejadores) arrolam, apenas, os conteúdos que a seu ver são necessários à vida social da criança. Evidentemente, para eles, o desenvolvimento da inteligência é inútil. A grande revolução pedagógica só ocorrerá quando se der uma ‘’revolução copernicana’’: em vez de se enumerar as habilidades desejáveis, pensar-se em situações estimuladoras do desenvolvimento mental, sejam elas úteis ou não ao processo de inserção social da criança. Exagerando um pouco, pode-se dizer que os planos, programas e currículos funcionam para a mente como a taladomida para a integridade somática...Quando na cúpula do sistema escola estiverem especialistas em psicogenética, o curso elementar será, sobretudo, um ‘’treinamento’’ para desenvolver as estruturas elementares da lógica e da pré-matemática, uma atividade predominantemente geometrizante.

Lauro de Oliveira Lima
Temas Piagetianos – pg.85
Setembro, 1981

quarta-feira, 20 de julho de 2011

E a criança o que é?


Os educadores deviam aprender com os veterinários – O código de menores é uma aberração – Relojoeiros não conserta computador – Os três nascimentos do filhote humano – Os índios são crianças grandes...

Poucas pessoas atentam para o fato de o ser humano (diferentemente de todos os outros animais) ter três planos de crescimento: biológico (crescimento físico de caráter anátomo-fisiológico e neurológico); psicológico (desenvolvimento mental que tende para uma logicização progressiva até alcançar o pensamento hipotético-dedutivo ou lógico-matemático); sociológico (lenta e progressiva integração no corpo sócio-cultural adulto com a assimilação das regras, valores e símbolos fabricados pelas gerações anteriores). Esta ‘’integração progressiva’’ , por sua vez, pode ser pacífica (iniciação) ou traumática (conflito de gerações), fato que determina a frenagem ou o processo do grupo social.  As crianças, até certa idade, estão imunes aos processos sócio-culturais: fabricam sua própria sociologia.

A psicossociologia descobriu que o crescimento da criança não é linear, como se supunha. A partir da fecundação, o filhote humano alcança patamares sucessivos, com características tão diferenciadas, que quase se pode afirmar a existência de ‘’animais’’ diferentes em cada um desses estádios. Como pode, por exemplo, uma criança tipicamente esquizofrênica (entre 3 e 6 anos) transformar-se num autêntico ‘’engenheiro’’ , preocupado com construções e engrenagens, logo no período seguinte (entre 6 e 10 anos)? Como pode a graciosa incoerência de uma criança pré-operatória transformar-se em rígida e implacável ‘’necessidade lógica’’? Como pode o submisso ‘’servo’’ , que luta pelo privilégio de ir buscar os chinelos do pai, transformar-se no ‘’contestador’’ , que zomba, à socapa, das idéias anacrônicas do ‘’velho’’ ?
 Não se diga que ‘’a sociedade ensina essas coisas às crianças’’, pois todos os membros da sociedade já foram crianças com essas características. Não houve uma pré- sociedade para ‘’doutrinar’’ as primeiras crianças. A sociedade foi construída pelas crianças que se foram desenvolvendo. Sabemos de sociedade que, por circunstâncias pouco explicadas, param seu desenvolvimento numa das etapas que encontramos hoje na criança do meio ‘’civilizado’’ (nossos indígenas não alcançam, quando adultos, as chamadas operações concretas: classificar, seriar, numerar, medir, partir, deslocar, intuições geométricas, etc...) Ainda não foram encontradas todas as etapas do desenvolvimento ( é só uma questão de tempo), mas os psicólogos e os sociólogos (microssociologia) já as determinaram, nitidamente, tanto do ponto de vista cognitivo (Piaget: capacidade operativa do pensamento para enfrentar a realidade), quando do ponto de vista afetivo (Freud regulação do fluxo energético das ações e determinação da escala dos valores). Quando a criança alcança um dos patamares (estádios) do seu desenvolvimento, aí permanece durante um tempo variável, apresentando, durante o período, tipologia inconfundível. Deste modo não tem sentido frases como ‘’a educação das crianças’’.
      A graciosa e romântica ‘’inocência’’ da criança é, apenas, a característica de um dos seus níveis mentais.
A assistência que os técnicos dão às máquinas varia com seu grau de complexidade:  o mecânico que conserta uma bicicleta não está, ipso facto, habilitado a consertar um relógio ou computador...Só que, com relação às crianças, a complexidade é decrescente: quanto menor a criança, mais habilidoso deve ser o ‘’mecânico’’ (educador). Piaget diz mesmo que, no futuro, os especialistas mais competentes serão reservador para cuidar das crianças menores (o que leva a crer que não tem muita importância a ‘’habilidade’’ dos professores universitários: os alunos da universidade já são capazes de funcionar sem ‘’mecânico’’...). Todos que lidam com crianças (pais, pediatras, psicoterapeutas, juízes de menores etc...) têm, hoje, o dever de capacitar-se para diagnosticar, com precisão absoluta, o estádio em que está a criança com que lida. O código de menores e o código de censura, por exemplo, são amontoados de asneiras que afrontam os mais elementares resultados da pesquisa psicossociológica (conceitos como o de ‘’excepcionalidade’’ e o de ‘’menor’’ são verdadeiras aberrações).

 Alcançar todos os patamares não é uma fatalidade: é logo e penoso esforço que nem todos fazem...
Nas escolas, os professores ‘’inventam’’ métodos de alfabetização que violam, às vezes, as características do patamar de desenvolvimento em que se encontra a criança. A maioria dos psicoterapeutas jamais indaga sobre o mecanismo cognitivo das crianças que lhes são  entregues para ‘’curar a afetividade’’ (sic). Os educadores, juízes de menores, terapeutas, etc., deviam fazer estágio numa clinica veterinária para aprender que as crianças são animais, de acordo com seus níveis de desenvolvimento. Um veterinário não se trata da mesma forma uma galinha e um elefante...

Hoje se sabe que não tem sentido a ‘’integração vertical’’ dos cursos (etapas escolares): no futuro, os graus escolares serão separados, radical e sofisticadamente: voltaresmos a ter o ‘’curso primário’’ rigorosamente diferente do ‘’curso ginasial’’. A experiência humana é válida: existe mesmo a ‘’idade do uso da razão’’ de que falam os padres...

Lauro de Oliveira Lima
(Temas Piagetianos - Editora Ao Livro Técnico)
Outubro, 1980
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