quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Professor, espécie em extinção (Parte 1)

Livro:TEMAS PIAGETIANOS
Lauro de Oliveira Lima
EDITORA AO LIVRO TÉCNICO S.A
Indústria e Comércio
Rio de Janeiro – RJ / 1984
Professor, espécie em extinção (1ª parte)
Com a descoberta da imprensa, começa a extinção da função de professor
- O professor do futuro será uma fita cassete? – O programa é sintoma de arcaísmo- A bola ou o jogo? – O conteúdo ou a operação? – Motricidade e o grupo de deslocamento – Os paidagogos gregos e o magister ludi romano – A memória da inteligência
         A tendência geral do desenvolvimento tecnológico é substituir a atividade humana pelas máquinas. Se assim é, pode-se prever que a função do magistério será substituída por circuitos de televisão? No dia em que se pôs no mercado a máquina fotográfica, a arqueológica pintura ao natural, perdeu toda a sua funcionalidade, da mesma forma que a profissão do copista (escriba) foi extinta pela imprensa de Gutenberg. A introdução de um computador num banco, por exemplo, elimina uma dezena de funções tradicionais (o contabilista está perdendo terreno a olhos vistos). Mês passado, no Ceará, vi quarenta mil alunos regulares receberem aulas em suas classes, de uma estação de televisão. Cada classe tem um orientador especialista em dinâmica de grupo que estimula os alunos a praticarem as atividades sugeridas pela televisão, com a agravante de as aulas funcionarem, em perfeita ordem, quando o orientador falta.

HISTÓRICO
         O paidagogos, na Grécia heroica e na Roma Imperial, era o escravo que (como a babá de nossos dias) passeava com a criança e a levava à escola, ensinando-lhe etiqueta. O mestre (magister ludi) tinha por função, numa primeira etapa (trivium), ensinar o manejo da língua (gramática, retórica e dialética) e, numa segunda (quadrivium), exercitar a criança no cálculo e nas artes matemáticas (aritmética, geometria, música e astronomia), atividades, hoje, típicas do jardim de infância. Com o advento do cristianismo, as escolas (raríssimas) passaram a funcionar em conventos e paróquias, orientadas para a catequese (modalidade escolar que os jesuítas, com atraso de alguns séculos, trouxeram para o Brasil), com a instituição das universidades (lá pelo ano 1.000), a função de magistério passou a confundir-se com a de lector (aquele que sabia ler os manuscritos cujo conteúdo os alunos analfabetos precisavam aprender).
         Neste ponto, parou a evolução da função do mestre. Os professores não tomaram conhecimento, nem da descoberta da imprensa (divulgação em massa dos manuscritos arquivados nas universidades) nem da generalização da alfabetização (dispensando, portanto, o serviço precioso dos lectores). Ainda hoje os professores comportam-se como se os alunos fossem analfabetos e como se não houvesse livros disponíveis. É muito comum a aula expositiva denominada, na gíria pedagógica de aula de salivação. Este tipo de professor é um fóssil, uma espécie em extinção. Se a função do professor é expor determinado conteúdo (informar), consegue-se isto, com mais eficiência, através de um pequeno banco de cassetes. A função de informação já não é tarefa do professor, mas dos livros, do rádio, da televisão, do computador, da máquina de calcular, do banco de dados, etc. Dificilmente, o professor pode concorrer com estes modernos instrumentos de difusão de conhecimento, sobretudo, porque estes instrumentos podem captar a informação no mais alto nível disponível e atingir, instantaneamente, milhões (satélites artificiais). A aula-conferência, hoje só se justifica para as grandes sínteses (aula de sapiência) e os simpósios (comunicação de informação ainda não disponível nos bancos de dados). É especialidade das vedetes intelectuais encarregadas de agitar a inércia dos centros de transmissão de conhecimentos. (Continua...)

Outubro, 1978 



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Adaptação (Vocabulário Piagetiano)

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Adaptação
Assimilação, acomodação, “feedback”, cultura, jogo simbólico, objetividade, “mecanismo de defesa”, psicanálise.
Obs: As palavras acima são referências que lhe ajudarão a compreender melhor a palavra em destaque
         “Gosto mais de falar em adaptação-equilíbrio entre assimilação e a acomodação. Na adaptação temos dois polos: a) indivíduo-assimilação e b) objeto acomodação” (Jean Piaget). Tem-se a impressão de que a adaptação é sempre a subordinação do organismo ao meio, o que não é verdade. A criança pequena, por exemplo, faz a sua adaptação (princípio do prazer) através de pura assimilação, deformando o objeto (jogo simbólico). Mas não há acomodação sem assimilação, pois a acomodação é reestruturação da assimilação. Quando a assimilação e a acomodação se compensam, há equilibração (auto regulação): os erros são corrigidos e os excessos compensados (feedback). Na adaptação temos vários vetores: a) o organismo (a mente) modifica o meio (objeto) para adaptá-lo à sua forma de ação (cultura); b) o organismo (a mente) “deforma” o objeto (o meio) não tomando conhecimento de seus atributos (assimilação pura deformante do “jogo simbólico” das crianças e dos “mecanismos de defesa” a que se referem os psicanalistas); c) o organismo (a mente) se modifica (acomodação) para adaptar-se ao objeto (imitação). Equilibração seria o meio-termo em que o organismo modifica o objeto (meio) e também se modifica, partindo de clara e progressiva objetividade (na medida em que a objetividade é possível)


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Comunicação (Vocabulário Piagetiano)

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Comunicação
         É o processo que torna “comum”, a duas ou mais pessoas, uma experiência (vivência) anteriormente individual. Para que uma experiência se comunique é preciso que seja codificada num sistema de símbolos-signos e descodificada pelo receptor. A comunicação é sempre bipolar. Distingue-se da mera informação em sentido contrário do mesmo valor. Só há comunicação se os comunicadores estiverem no mesmo nível de operacionalidade e usarem um código comum. A comunicação é um fenômeno de grupo (a informação pode ser para a multidão). Se não houver um mínimo de nivelamento, pois, não existe grupo por falta de comunicação. Ora, quanto mais comunicação, mais logicização e mais codificação. A comunicação supõe significantes artificiais, convencionais e de alta generalidade (aceito por todos). Dessa forma o que se ganha em singularidade, perde-se em comunicação. Daí a incomunicabilidade do vivencial (declarações de amor, por exemplo). O instrumento de manifestação vivencial, pois, não é o código linguístico convencional regido pelo pensamento lógico. É a singularidade motivada pelo pensamento simbólico (produção artística). A obra artística não comunica, manifesta (na medida que não é um código convencional). O observador é que tem de ler a obra e interpretá-la, segundo as induções processadas em suas próprias vivências. A comunicação é um processo grupal de cooperação. E a cooperação exige a renuncia à singularidade. Daí os equívocos das relações amorosas.


terça-feira, 4 de março de 2014

Acomodação (aprendizagem e aumento de conhecimento)

Livro: PIAGET. Sugestões aos educadores
Vocabulário
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.   
Editora VOZES
Lauro de Oliveira Lima
Acomodação (aprendizagem e aumento de conhecimento) (Pág. 146/147)
Obs: As palavras acima são referências que lhe ajudarão a compreender melhor a palavra em destaque.


reestruturação invenção evolução
"aprendizagem" descoberta comportamento
problema dificuldade conformação
perturbação pedagogia
agressão do meio reorganização
assimilação cibernética
esquema de ação feedback
paradigma regulação
reconstrução imitação
combinatória jogo simbólico
novidade complexificação




            A acomodação é a reestruturação do esquema (estratégia) de assimilação (não há acomodação senão no curso de uma assimilação). A acomodação é a “aprendizagem” ou o aumento de conhecimento, modificação operativa na forma de agir (pensar). Diante de uma dificuldade (problema), o organismo (a mente): a) recua ou desiste da atividade; b) deforma a situação (mecanismo de defesa ou jogo simbólico) para adaptá-la aos esquemas de assimilação; c) reestrutura o esquema de ação (acomodação). Adaptação. Feita a reestruturação, o organismo (a mente) passa a dispor de um novo esquema de ação que deve ser alimentado (diz-se que houve uma “equilibração majorante”). Essa forma de agir ocorre em todos os níveis do desenvolvimento. A “mudança de paradigma” na pesquisa científica é simplesmente uma “acomodação”. A teoria anterior (esquema de assimilação) não conseguiu explicar (assimilar) totalmente a situação. Quando a criança de colo modifica sua maneira de agir para superar uma dificuldade, faz uma acomodação. Por aí se vê que o aumento de conhecimento (aprendizagem) depende de uma reestruturação do comportamento (motor, verbal ou mental), provocada por um problema (e aí temos uma nova pedagogia). Desta explicação piagetiana decorre o axioma: “não se aprende nada inteiramente novo” o conhecido corresponde à assimilação (o novo é a acomodação). Piaget já quase não falava em assimilação-acomodação. A teoria da equilibração ou da auto regulação explica melhor o que ocorre entre o sujeito e o meio. Note-se que a acomodação pode ocorrer entre esquemas (os esquemas se assimilam mutuamente), caso em que, em vez de adaptação ao meio, houve reorganização motora, verbal ou mental). Quando o organismo (a mente) perde a capacidade de reestruturar-se, o organismo (mente) deixou de desenvolver-se.
            Na linguagem cibernética (que Piaget adota em parte), a acomodação é o efeito do feedback (regulação), com a diferença de que Piaget fala em “equilibração majorante” ou ultrapassagem (complexificação da estrutura). A acomodação é a subordinação do organismo ao meio (a imitação é o melhor exemplo de acomodação). Há assimilação sem acomodação (jogo simbólico das crianças) mas não há acomodação sem assimilação, mesmo porque a assimilação é uma reestruturação da acomodação. – v. Adaptação

A acomodação consiste na complexificação (combinatória) de esquemas anteriores (aumento de mobilidade do esquema). Para Piaget, a evolução é também uma acomodação (“o comportamento como motor da evolução”). Note-se que a expressão acomodação nada tem a ver com o seu sentido corriqueiro (conformação). É precisamente o contrário um esforço de reestruturação para enfrentar as perturbações do meio.

Conceitos de Afetividade - Vocabulário

Na segunda parte do livro do Professor Lauro de Oliveira Lima, “Piaget, Sugestões aos Educadores”, Editora Vozes, encontramos um verdadeiro tesouro para aquelas pessoas interessadas no estudo dos conceitos fundamentais de mestre genebrino.
Com o título, “Vocabulário. Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget”, o professor Lauro de Oliveira Lima explicita noções fundamentais das mesmas que nem sempre aparecem de forma clara nas diferentes traduções e versões, isto somado às próprias dificuldades que os conceitos específicos apresentam.
Neste blog selecionaremos alguns desses conceitos para que o leitor experimente a grande valia deste vocabulário como guia ou orientação de seus estudos.
Também colocaremos frases do professor e de outros pensadores que aparecem no Vocabulário e que são pequenas gotas de epistemologia genética que nos fazem pensar y refletir.
¡Boa leitura!

“Vocabulário. Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget”.
Conceito: Afetividade
(página 150)
forma                                                               estratégia                                           motivação
escala de valores                                            neuroquímica                                     adrenalina
energética                                                       necessidade                                        tônus
Para Piaget os fenômenos psicológicos são sistemas diferenciados de atividade (motora, verbal e mental). A atividade tem duas variáveis: a) uma forma ou estratégia e b) uma energética ou tônus. Estratégia é a inteligência, e a energética, a afetividade. A energética varia de acordo com a necessidade (motivação). O grau de pressão da atividade determina o nível de interesse e os dispêndios de energia. Uma atividade (motora, verbal, ou mental) se realiza com maior o menor grau de interesse (Tônus ou afetividade). O indivíduo esfaimado, por exemplo, come com mais sofreguidão. O jogador empenhado na vitória do seu time joga com alto tônus energético. Quanto mais um objeto (e o objeto pode ser uma pessoa) corresponde à satisfação de uma necessidade (e quanto mais a necessidade é fundamental) mais “afetado” (energizado-tonificado) é o comportamento (motor, verbal ou mental). Cada indivíduo estabelece uma escala de valores ou de prioridades com relação às suas necessidades, podendo fazer de uma delas, por exemplo, um ideal ou objeto (pessoal) privilegiado de seu “amor”. Se compararmos o comportamento com uma partitura musical podemos dizer que a variação sequencial das notas na pauta é a inteligência e as notações sobra a forma de execução a afetividade.

“No desenvolvimento do pensamento operatório, o problema é compreender as relações e as transformações”. (L.O.Lima)

“Aqueles que, neste país, há tanto tempo, refletem sobre os métodos usados no ensino primário, estão cada vez mais convencidos de que são péssimos porque não são adaptados ao estádio mental, moral, e físico das crianças” (USA – Sheldon, 1967).

domingo, 13 de outubro de 2013

PROFESSOR - ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA... - PARTE 3 (FINAL)

Livro: PEDAGOGIA: REPRODUÇÃO OU TRANSFORMAÇÃO
Lauro de Oliveira Lima Editora Brasiliense. Primeiros Voos Nº 9 /1982
PROFESSOR - ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA...
Terceira parte
A velha desculpa para o exercício desta guerra de opereta entre alunos e professores era que o mestre, sendo o guarda do conhecimento, da sabedoria, da perícia, precisava exercer a autoridade para transfundi-la na cabeça dos alunos, pois o enchedor de garrafas não pode trabalhar numa mesa que treme... Os velhos, nas civilizações antigas, eram respeitados (gerontocracia) precisamente por este motivo: precisamente não havendo escrita, tornavam-se os guardas da sabedoria, da experiência, da tradição, de tudo. É absolutamente idêntico o papel dos professores (gerontocratas)...  Mas esta desculpa já não vale: os conhecimentos, hoje, estão na bibliotecas, nos bancos de dados, nos satélites, na televisão, no cinema, nos gravadores, nos videocassetes. A humanidade descobriu, com a escrita, um meio para PRESERVAR a memória do grupo social sem depender dos velhos e dos professores. Os alunos, ao aprenderem a ler, deixam de precisar de recitadores (o lente medieval). Os computadores podem criar complexas situações de autoaprendizagem, dispensando, completamente, professores, reprodutores. Um armário de tapes de televisão substitui, hoje, por preço imensamente mais barato, toda a atividade do corpo docente com a vantagem (para os patrões) de tape não fazer greve... O professor-autoridade, o professor-conferencista, o professor-expositor ou explicador, o velho duce que nos legaram as civilizações clássicas e medieval... é uma “espécie em extinção”, como os dinossauros, diante da tecnologia moderna. Está nascendo uma nova espécie de professor...
A crítica a este fóssil sobrevivente dentro de uma civilização tecnológica vem de muito longe- Rousseau (1712) já dizia que “a mania pedantesca do mestre é sempre ensinar às crianças aquilo que elas aprenderiam melhor por si mesmas”. B. Shaw já captara com sua ferina ironia o erro fundamental da profissão magisterial: “se você ensina algo a alguém, ele não o saberá jamais”. Mais recentemente, os dois respeitados mestres da moderna epistemologia sentenciaram: a) G. Bachelard: descobrir é a única maneira ativa de conhecer: correlativamente, fazer descobrir é o único modelo de ensinar”. b) Jean Piaget: “tudo o que se ensina à criança impede que ela descubra ou invente”. Hans Aebli analisou, contundentemente, o método heurístico (chamado por uns “dialogal” que pretende substituir o velho discurso (exposição) do comandante ante as suas tropas ou de pregador perante seus fiéis (professar= proclamar, fazer confissão de fé). O método heurístico (dialogal) é intermitente (como o gorgolar da água que sai em golfadas da garrafa), fragmentário (atomiza a situação, o conhecimento, a teoria, em mil fragmentos deglutíveis, produzindo a perda de noção de conjunto) y sofístico (o condutor do diálogo- e Sócrates seu inventor era um sofista- pode dirigir a “discussão” para a conclusão que bem entender como se pode demonstrar através da técnica de “direção de conferências” que os norte-americanos ensinam aos executivos para dominarem as assembleias dos acionistas- ver Escola no futuro (de Lauro de Oliveira Lima. Ed. Vozes). Como se vê, nada resta como método expositivo (chamado na gíria escolar de “método da salivação” ou de “cuspe e giz”) ao moderno professor, consistindo o “método heurístico” ou “dialogal” um disfarce para salvar a figura do antigo pater famílias (o guia espiritual que, como o psicanalista moderno, termina ocupando, na mente do educando, o lugar da consciência). O que se busca, hoje, é “a morte do pai”, seja ele o tirano jupteriano ou o paciente guia espiritual que se transforma em guru “fazendo a cabeça” dos prosélitos. E sem pai para conduzir os indivíduos, só existe a “dinâmica de grupo” (grupo autônomo ou democracia).
O moderno professor (se não quiser ser eliminado pela televisão educativa, que leva, instantaneamente, o “discurso” a milhões de ouvintes, “discurso” que elimina todas as falhas), o moderno professor deve tornar-se mero animador que estimula atividade sensório-motora, verbal e mental dos alunos, propondo situações de complexidade crescente. Os verdadeiros educadores, já se vinham comportando assim em todos os tempos (mas como são raros verdadeiros educadores!). Em vez do diálogo entre mestre e aluno (situação fundamentalmente oblíqua e paternalista), o diálogo de todos com todos (democracia), o que se denomina discussão (ver Dinâmica de grupo no lar, na empresa e na escola- editora Vozes e Os mecanismos da liberdade, Editora Polis, ambos de Lauro de Oliveira Lima). O personagem moderno que mais se aproxima do modo como se deve comportar o professor atual é o técnico do time de futebol: orienta, dá instruções, corrige, estimula, mas não joga: “o professor não ensina: ajuda o aluno a aprender” (ver Escola Secundária Moderna, de Lauro de Oliveira Lima, editora Universitária). A microssociologia fornece, hoje, todos os elementos para fazer os alunos “jogarem”. Como se vê, voltamos às origens do sistema escolar: scholé (lazer) e ludus (jogo), pois o processo de desenvolvimento da criança só pode ser conduzido através de atividades livres, a partir das situações problemáticas que expandam o pensamento em todas as direções possíveis em busca de originalidade (“abertura para todos os possíveis”). O professor é como o agente catalítico cuja presença estimula e desafia as crianças que “jogam” (a discussão, mesmo em seus mais altos níveis, é um jogo). Nesta perspectiva, o ápice do êxito do professor é TORNER-SE DESNECESSÁRIO, suicídio profissional que só pode ser praticado pelos educadores que, em vez de fazerem da classe um palco para seu HAPPENING, fazem dela uma plataforma donde os jovens autônomos alçam voo para outras galáxias! ...
Há séculos os professores avaliam os alunos (metade do tempo dos cursos de formação de professores gira em torno do manejo desta arma mortífera sem a qual não haveria escola). Está na hora de os alunos avaliarem, também, os professores. Toda atividade que não sofre feedback (retroalimentação), incorporação corretora do efeito sobre a própria ação, auto regulação cibernética, tende a degenerar-se: a atividade do magistério é uma das poucas que não sofre censura, mesmo porque o fracasso é atribuído aos alunos (ver Escola Secundária Moderna, de Lauro de Oliveira Lima, editora Universitária). Se os professores recebessem o feedback de suas aulas (de sua atividade docente), disporiam de riquíssimo meio de auto aperfeiçoamento contínuo. Mas para isto é preciso primeiro renunciarem ao mandarinato e transformarem-se em técnicos de time... A moderna psicologia verificou que “quem acabou de aprender é quem está mais apto a ensinar”, isto porque ainda guarda a lembrança dos rodeios que foram que foram necessários para a aprendizagem (dinâmica de grupo). Os professores, pois, poderiam aprender de seus melhores alunos se não se fixassem na atitude de capatazes encarregados de fazer os operários trabalharem para o patrão...

PROFESSOR - ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA... - PARTE 2

Livro: PEDAGOGIA: REPRODUÇÃO OU TRANSFORMAÇÃO
Lauro de Oliveira Lima Editora Brasiliense. Primeiros Voos Nº 9 /1982
PROFESSOR - ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA...
Segunda parte
Na raiz da palavra educação está o étimo dux, ducis, que em latim significa condutor, general, imperador, donde os franceses denominarem o magistério de mandarinato (não se deve esquecer que educere em latim significa, também, puxar a espada). O termo mestre ligado a dominus = dono da casa) é derivado de magis (mais) indicando o especialista, mestre-de-obras, contramestre (maître penseur) que conduz, na obra, os que não têm perícia. A palavra professor (do latim profieri, ir na frente gritando, ter uma profissão) lembra o procedimento dos vaqueiros que conduzem a manada aboiando (o aboio é uma espécie de melopeia sem palavras, parecida com o cantochão, cuja função é embalar o gado tangido através das veredas das caatingas). Lente, (lector, em latim) era, na Idade Média o indivíduo que lia para os alunos analfabetos (não havendo livros, não havia interesse em aprender a ler) os pergaminhos e os papiros, religiosamente guardados na biblioteca da universidade. O lente terminava por decorar o texto, passando a recitá-lo de cor, prática que veio até os nossos dias e que parece muito mais “brilhante” que as que usam ainda a sebenta, hoje transformada (sic) em “fichas de consulta” ou em retroprojetor... O professorado não tomou conhecimento da descoberta do poder multiplicador da imprensa e seus derivados (mimeógrafo, gravador, xerox, etc.) continuando a expor, oralmente, lições como faziam seus companheiros medievais que só dispunham de recitação. Desta forma os alunos não chegam sequer a aprender a ler... Instrutor (instruere), era entre os romanos, aquele que punha o exército em ordem de batalha, motivo talvez por que se reservou o termo para os professores de educação física e para os mestres de ofício. O termo mais comum, hoje em dia, para o processo pedagógico é ENSINO, tendo-se abandonado a expressão EDUCAÇÃO. Ensinar (do latim, in signum) significa “dar ou colocar um sinal”, cunhar ou assinalar algo, ato parecido, grosseiramente, com a atividade dos pecuaristas que marcam com ferro em brasa sua criação (e note-se que criação e criança têm a mesma etimologia. A diferença entre o “assinalamento” (marcação) do gado e o “ensinamento” (educação da criança) é que, em vez de ferro em brasa, os professores marcam os educandos com medalhas, notas e diplomas... É que a educação deixou de ser “criação” (nos dois sentidos do termo) para ser “diplomação”. O diploma é, precisamente, o documento que “assinala” (dá um privilégio) novidade histórica que só aparece no sistema escolar quando se torna mais nítida a divisão da sociedade em classes (o diploma passou a funcionar como “sinal” – ensino -  de “nobreza”). Mas só as autoridades tradicionais podem dar diploma (privilégios), donde a expressão catedrático aquele que senta na cadeira (cátedra) como imperador. Já não se trata, pois, de conduzir a tropa (educere), pois a guerra acabou mas da distribuição de benefitia (privilégio) feita pelo suserano, segundo seus caprichos (e como são caprichosos os professores, cada um com suas idiossincrasias). Como se tornam petulantes e enfadados quando estão certos do seu poder! Parecem o imperador, no circo, decidindo com o polegar para baixo quem deve morrer... Aprender (aptendere) é “pegar no ar” algo que foi jogado, como se faz quando alimentam-se os cães: joga-se o naco de carne para ser abocanhado, num pulo pelo animal. O professor joga, também, o “ensino” no ar, e o aluno que “apreenda” (aprenda) se quiser e como puder... Nenhuma semelhança com a mãe que ensina o filho a andar e/ou com o mestre que ensina o ofício ao aprendiz: os exames garantirão a eficiência do conferencista...
Através de todos os tempos e em todos os lugares, o professor foi sempre um tiranete que, inclusive, podia punir fisicamente seus discípulos, isto é, aqueles que estão sendo disciplinados (em latim, disciplina significa tanto ordenação como a “matéria” que se ensina). Se perguntarmos aos professores o que mais esperam de seus alunos, responderão uníssonos: respeito (e respeito, em latim, significa olhar para trás, demonstrando medo) quando seria de esperar-se que preferissem ser amados pelos alunos. A suprema ofensa dos alunos aos mestres é desrespeitá-los, isto é perder o temor a eles e passar a trata-los como parceiros. A virtude que mais se caracteriza é a autoridade, ato de tomar posse de algo ou de alguém. A hipótese seria que se estabelecesse um cordão umbilical entre o aluno e o mestre (aluno significa, em latim, aquele que é alimentado). Mas como amamentar um ser que nos teme?
Mais que conhecimento da matéria, o mestre exige do aluno bom comportamento (bem-comportado não é só aquele que transporta coisas com cuidado, mas também aquele que está “parado no porto” ou “por trás das portas” notando-se que, modernamente, a palavra comporta significa imensas placas de ferro que impedem o fluxo das águas de uma represa.)
Todos os ditadores têm, invariavelmente, cuidado com a “educação” dos jovens (meio de perpetuar sua ditadura) introduzindo no curriculum, sempre, esta disciplina denominada “moral e civismo” espécie de RDE (regulamento disciplinar do exército) para as novas gerações. A rebeldia é a suprema falta para os tiranos, e o bom “comportamento”, o objetivo final da educação, donde deve ser conduzida por um capataz. O professor foi sempre um chefete ou cacique com a agravante de exercer seu poder sobre crianças, o que se assemelha caricaturalmente à autoridade do EUNUCO sobre as odaliscas do harém do sultão. Muitos professores agem como condottiere ou führers frustrados (como os síndicos dos prédios de apartamentos) que exercem sua vocação em situação de “faz-de-conta” (“cachorro em curral de bezerros” - como diz, pitorescamente, um romancista conterrâneo). Em vão alguns educadores propuseram, há muito tempo, a adoção do self-government república escolar ou governo autônomo como método de disciplina: estes mandarins jamais abdicariam deste seu reinado de Gulliver no país dos anões...

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