quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Temas Piagetianos: É necessário criar uma nova forma de pensar (Parte 2 - final)

Lauro de Oliveira Lima. Livro: Temas piagetianos.
Ed. Ao Livro Técnico
“É necessário criar
uma nova forma de pensar”
Einstein (parte 2)


EINSTEIN
E PIAGET
         A concepção de tempo, espaço, velocidade, simultaneidade, (conceitos eminentemente físicos) varia ao longo do desenvolvimento da criança, de forma radical, como se em cada estágio do desenvolvimento a criança assumisse a forma de um “Einstein” paleontológico. Certa vez conta Piaget, Einstein (após de ouvir uma das suas conferências) pediu-lhe que investigasse como as crianças concebem, sucessivamente, a simultaneidade e a velocidade. Quando em outro encontro, Piaget transmitiu-lhe os resultados (que, por acaso confirmam as teorias einsteinianas), Einstein empolgado, comentou que a psicologia era ainda mais complexa que a física.
         Ora, essa transitividade da maneira de pensar não foi sequer incorporada pelos psicólogos e educadores, da mesma forma como a maioria dos físicos e matemáticos não incorporaram ainda a teoria da relatividade em sua maneira rotineira de pensar. Serão precisos séculos para que as ideias de Einstein sejam digeridas pela humanidade, em seu dia a dia. O mesmo acontecerá, em ciências humanas, com Jean Piaget, cujo centenário ocorrerá ás vésperas do ano 2000 (ele nasceu a 9 de agosto de 1896, em Neuchâtel, na Suíça)

Abril, 1979 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Temas Piagetianos: É necessário criar uma nova forma de pensar (Parte 1)

Lauro de Oliveira Lima. Livro: Temas piagetianos.
Ed. Ao Livro Técnico
“É necessário criar
uma nova forma de pensar”
Einstein (parte 1)

         A 14 de março de 1879, nascia em Ulm, pequena cidade alemã às margens do Danúbio, um menino com a cabeça tão grande e angular que preocupou, consideravelmente, seus familiares. O bebê, que o médico garantiu ser uma criança perfeita, recebeu o nome de Albert Einstein.
         Era como se a História, estivesse unindo o nome de Einstein – precursor de uma nova era – ao de Kepler – artífice da época científica anterior – que morrera nessa mesma cidade de Ulm, berço do maior cientista do século XX – o “Século de Einstein”.
         As teorias einsteinianas provocaram profundas modificações na Física clássica e lhe valeram o Prêmio Nobel de Física, em 1921, pelo seu Efeito Fotoelétrico descrito na Teoria Fotônica da Luz. Mas, acima de tudo, Einstein foi um homem polêmico. Mesmo sendo um pacifista, colaborou para a construção da primeira bomba atômica e, embora acreditasse em Deus, reformulou as leis tidas como eternas. Sua infância também não foi das mais tradicionais. Ele só começou a falar aos três anos de idade e chegou a ouvir de seus professores a vã profecia: “Você nunca chegara a ser coisa alguma na vida”. Entretanto, uma bússola que ele recebeu de presente aos cinco anos de idade e o livro de Geometria de Euclides, já nos 14 anos, despertaram naquele menino uma profunda identidade, com as forças do universo.
         Selecionamos, entre seus pontos de vista, algumas considerações significativas, que transcrevemos a seguir.
         A um estudante:
         - Não se preocupe com as suas dificuldades em matemática. Posso lhe assegurar que as minhas são ainda maiores.
         Sobre a humildade:
- Cada pessoa seriamente empenhada em conquistas científicas se convence da existência de um espírito que preside as leis do universo – um espírito vastamente superior ao do homem e diante do qual nós, com nossos modestos poderes, devemos nos sentir humildes.
         Os prazeres:
         - Não dou a menor importância ao dinheiro. Condecorações, títulos e outras distinções nada significam para mim. Também não vivo a procura de elogios. As únicas coisas que me dão prazer, fora o meu trabalho, o meu barco a vela e o meu violino, são a compreensão e o apreço dos meus colegas cientistas.
Sobre o espírito da ciência
- Sou por natureza inimigo das dualidades. Dois fenômenos ou dois conceitos que parecem diversos me ofendem. Minha mente tem um objetivo supremo: suprimir as diferenças. Assim agindo permaneço fiel ao espirito da ciência que desde o tempo dos gregos, sempre aspirou à unidade. Na vida, como na arte, assim é também. O amor tende a fazer de duas pessoas um único ser. A poesia com o uso perpétuo da metáfora que assimila objetos diversos, pressupõe a identidade de todas as coisas.
         Caso as suas afirmações não se confirmassem:
         - Então eu lamentaria pelo bom Deus, pois a teoria está correta. (continua)...

Abril, 1979 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Professor, espécie em extinção (Parte 2 - final)

Livro: TEMAS PIAGETIANOS
Lauro de Oliveira Lima
EDITORA AO LIVRO TÉCNICO S.A
Indústria e Comércio
Rio de Janeiro – RJ / 1984
Professor, espécie em extinção (2ª parte)
Com a descoberta da imprensa, começa a extinção da função de professor
- O professor do futuro será uma fita cassete? – O programa é si8ntoma de arcaísmo- A bola ou o jogo? – O conteúdo ou a operação? – Motricidade e o grupo de deslocamento – Os paidagogos gregos e o magister ludi romano – A memória da inteligência
...
O NOVO PROFESSOR

         A atual (ou futura) função do professor é estimular o desenvolvimento intelectual sem preocupação com a extensão do conteúdo (o professor moderno já não se utiliza de programas; preocupa-se com as operações em jogo). O profissional que mais se aproxima, hoje, da moderna concepção da função docente é o professor de educação física e o técnico de um time de futebol. Se quisermos, hoje, avaliar o grau de anacronismo de um profissional do magistério, basta medir sua preocupação em “dar o programa”. Os administradores que, reformando os programas, pensam estar modificando o sistema solar... são meros arcaísmos incrustados no tempo presente como mariscos no casco de um navio transatlântico. Se um técnico de futebol, tentasse ensinar aos jogadores a fazer a bola... todos diriam que tinha enlouquecido (a bola é o conteúdo: o que se pretende é ensinar a jogar bola). Extinguiu-se o professor-especialista (em física, química, gramática, história, etc.). O professor voltou a ser o paidagogos grego (educador) que estimula, desafia, sugere, indica, critica, conduz, esclarece, assessora, enfim, “o professor não ensina: ajuda o aluno a aprender”. (L.O.L. Escola Secundária Moderna. ED. Forense Universitária)
         A professora do maternal, ao observar a criança correndo no pátio (como o professor de matemática do pré-adolescente) não está atenta aos conteúdos (tipos de jogos, por exemplo), mas ao número e qualidade das operações de que a criança é capaz (grupo geométrico dos deslocamentos). O que está em jogo, portanto, não é a memória (deixada por conta do banco de dados) mas a operacionalidade. É a esta nova atitude, que se denomina educar pela inteligência. A especialidade do professor moderno é, portanto, o desenvolvimento da criança pela psicogenética.
Outubro, 1978  

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Professor, espécie em extinção (Parte 1)

Livro:TEMAS PIAGETIANOS
Lauro de Oliveira Lima
EDITORA AO LIVRO TÉCNICO S.A
Indústria e Comércio
Rio de Janeiro – RJ / 1984
Professor, espécie em extinção (1ª parte)
Com a descoberta da imprensa, começa a extinção da função de professor
- O professor do futuro será uma fita cassete? – O programa é sintoma de arcaísmo- A bola ou o jogo? – O conteúdo ou a operação? – Motricidade e o grupo de deslocamento – Os paidagogos gregos e o magister ludi romano – A memória da inteligência
         A tendência geral do desenvolvimento tecnológico é substituir a atividade humana pelas máquinas. Se assim é, pode-se prever que a função do magistério será substituída por circuitos de televisão? No dia em que se pôs no mercado a máquina fotográfica, a arqueológica pintura ao natural, perdeu toda a sua funcionalidade, da mesma forma que a profissão do copista (escriba) foi extinta pela imprensa de Gutenberg. A introdução de um computador num banco, por exemplo, elimina uma dezena de funções tradicionais (o contabilista está perdendo terreno a olhos vistos). Mês passado, no Ceará, vi quarenta mil alunos regulares receberem aulas em suas classes, de uma estação de televisão. Cada classe tem um orientador especialista em dinâmica de grupo que estimula os alunos a praticarem as atividades sugeridas pela televisão, com a agravante de as aulas funcionarem, em perfeita ordem, quando o orientador falta.

HISTÓRICO
         O paidagogos, na Grécia heroica e na Roma Imperial, era o escravo que (como a babá de nossos dias) passeava com a criança e a levava à escola, ensinando-lhe etiqueta. O mestre (magister ludi) tinha por função, numa primeira etapa (trivium), ensinar o manejo da língua (gramática, retórica e dialética) e, numa segunda (quadrivium), exercitar a criança no cálculo e nas artes matemáticas (aritmética, geometria, música e astronomia), atividades, hoje, típicas do jardim de infância. Com o advento do cristianismo, as escolas (raríssimas) passaram a funcionar em conventos e paróquias, orientadas para a catequese (modalidade escolar que os jesuítas, com atraso de alguns séculos, trouxeram para o Brasil), com a instituição das universidades (lá pelo ano 1.000), a função de magistério passou a confundir-se com a de lector (aquele que sabia ler os manuscritos cujo conteúdo os alunos analfabetos precisavam aprender).
         Neste ponto, parou a evolução da função do mestre. Os professores não tomaram conhecimento, nem da descoberta da imprensa (divulgação em massa dos manuscritos arquivados nas universidades) nem da generalização da alfabetização (dispensando, portanto, o serviço precioso dos lectores). Ainda hoje os professores comportam-se como se os alunos fossem analfabetos e como se não houvesse livros disponíveis. É muito comum a aula expositiva denominada, na gíria pedagógica de aula de salivação. Este tipo de professor é um fóssil, uma espécie em extinção. Se a função do professor é expor determinado conteúdo (informar), consegue-se isto, com mais eficiência, através de um pequeno banco de cassetes. A função de informação já não é tarefa do professor, mas dos livros, do rádio, da televisão, do computador, da máquina de calcular, do banco de dados, etc. Dificilmente, o professor pode concorrer com estes modernos instrumentos de difusão de conhecimento, sobretudo, porque estes instrumentos podem captar a informação no mais alto nível disponível e atingir, instantaneamente, milhões (satélites artificiais). A aula-conferência, hoje só se justifica para as grandes sínteses (aula de sapiência) e os simpósios (comunicação de informação ainda não disponível nos bancos de dados). É especialidade das vedetes intelectuais encarregadas de agitar a inércia dos centros de transmissão de conhecimentos. (Continua...)

Outubro, 1978 



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Adaptação (Vocabulário Piagetiano)

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Adaptação
Assimilação, acomodação, “feedback”, cultura, jogo simbólico, objetividade, “mecanismo de defesa”, psicanálise.
Obs: As palavras acima são referências que lhe ajudarão a compreender melhor a palavra em destaque
         “Gosto mais de falar em adaptação-equilíbrio entre assimilação e a acomodação. Na adaptação temos dois polos: a) indivíduo-assimilação e b) objeto acomodação” (Jean Piaget). Tem-se a impressão de que a adaptação é sempre a subordinação do organismo ao meio, o que não é verdade. A criança pequena, por exemplo, faz a sua adaptação (princípio do prazer) através de pura assimilação, deformando o objeto (jogo simbólico). Mas não há acomodação sem assimilação, pois a acomodação é reestruturação da assimilação. Quando a assimilação e a acomodação se compensam, há equilibração (auto regulação): os erros são corrigidos e os excessos compensados (feedback). Na adaptação temos vários vetores: a) o organismo (a mente) modifica o meio (objeto) para adaptá-lo à sua forma de ação (cultura); b) o organismo (a mente) “deforma” o objeto (o meio) não tomando conhecimento de seus atributos (assimilação pura deformante do “jogo simbólico” das crianças e dos “mecanismos de defesa” a que se referem os psicanalistas); c) o organismo (a mente) se modifica (acomodação) para adaptar-se ao objeto (imitação). Equilibração seria o meio-termo em que o organismo modifica o objeto (meio) e também se modifica, partindo de clara e progressiva objetividade (na medida em que a objetividade é possível)


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Comunicação (Vocabulário Piagetiano)

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Comunicação
         É o processo que torna “comum”, a duas ou mais pessoas, uma experiência (vivência) anteriormente individual. Para que uma experiência se comunique é preciso que seja codificada num sistema de símbolos-signos e descodificada pelo receptor. A comunicação é sempre bipolar. Distingue-se da mera informação em sentido contrário do mesmo valor. Só há comunicação se os comunicadores estiverem no mesmo nível de operacionalidade e usarem um código comum. A comunicação é um fenômeno de grupo (a informação pode ser para a multidão). Se não houver um mínimo de nivelamento, pois, não existe grupo por falta de comunicação. Ora, quanto mais comunicação, mais logicização e mais codificação. A comunicação supõe significantes artificiais, convencionais e de alta generalidade (aceito por todos). Dessa forma o que se ganha em singularidade, perde-se em comunicação. Daí a incomunicabilidade do vivencial (declarações de amor, por exemplo). O instrumento de manifestação vivencial, pois, não é o código linguístico convencional regido pelo pensamento lógico. É a singularidade motivada pelo pensamento simbólico (produção artística). A obra artística não comunica, manifesta (na medida que não é um código convencional). O observador é que tem de ler a obra e interpretá-la, segundo as induções processadas em suas próprias vivências. A comunicação é um processo grupal de cooperação. E a cooperação exige a renuncia à singularidade. Daí os equívocos das relações amorosas.


terça-feira, 4 de março de 2014

Acomodação (aprendizagem e aumento de conhecimento)

Livro: PIAGET. Sugestões aos educadores
Vocabulário
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.   
Editora VOZES
Lauro de Oliveira Lima
Acomodação (aprendizagem e aumento de conhecimento) (Pág. 146/147)
Obs: As palavras acima são referências que lhe ajudarão a compreender melhor a palavra em destaque.


reestruturação invenção evolução
"aprendizagem" descoberta comportamento
problema dificuldade conformação
perturbação pedagogia
agressão do meio reorganização
assimilação cibernética
esquema de ação feedback
paradigma regulação
reconstrução imitação
combinatória jogo simbólico
novidade complexificação




            A acomodação é a reestruturação do esquema (estratégia) de assimilação (não há acomodação senão no curso de uma assimilação). A acomodação é a “aprendizagem” ou o aumento de conhecimento, modificação operativa na forma de agir (pensar). Diante de uma dificuldade (problema), o organismo (a mente): a) recua ou desiste da atividade; b) deforma a situação (mecanismo de defesa ou jogo simbólico) para adaptá-la aos esquemas de assimilação; c) reestrutura o esquema de ação (acomodação). Adaptação. Feita a reestruturação, o organismo (a mente) passa a dispor de um novo esquema de ação que deve ser alimentado (diz-se que houve uma “equilibração majorante”). Essa forma de agir ocorre em todos os níveis do desenvolvimento. A “mudança de paradigma” na pesquisa científica é simplesmente uma “acomodação”. A teoria anterior (esquema de assimilação) não conseguiu explicar (assimilar) totalmente a situação. Quando a criança de colo modifica sua maneira de agir para superar uma dificuldade, faz uma acomodação. Por aí se vê que o aumento de conhecimento (aprendizagem) depende de uma reestruturação do comportamento (motor, verbal ou mental), provocada por um problema (e aí temos uma nova pedagogia). Desta explicação piagetiana decorre o axioma: “não se aprende nada inteiramente novo” o conhecido corresponde à assimilação (o novo é a acomodação). Piaget já quase não falava em assimilação-acomodação. A teoria da equilibração ou da auto regulação explica melhor o que ocorre entre o sujeito e o meio. Note-se que a acomodação pode ocorrer entre esquemas (os esquemas se assimilam mutuamente), caso em que, em vez de adaptação ao meio, houve reorganização motora, verbal ou mental). Quando o organismo (a mente) perde a capacidade de reestruturar-se, o organismo (mente) deixou de desenvolver-se.
            Na linguagem cibernética (que Piaget adota em parte), a acomodação é o efeito do feedback (regulação), com a diferença de que Piaget fala em “equilibração majorante” ou ultrapassagem (complexificação da estrutura). A acomodação é a subordinação do organismo ao meio (a imitação é o melhor exemplo de acomodação). Há assimilação sem acomodação (jogo simbólico das crianças) mas não há acomodação sem assimilação, mesmo porque a assimilação é uma reestruturação da acomodação. – v. Adaptação

A acomodação consiste na complexificação (combinatória) de esquemas anteriores (aumento de mobilidade do esquema). Para Piaget, a evolução é também uma acomodação (“o comportamento como motor da evolução”). Note-se que a expressão acomodação nada tem a ver com o seu sentido corriqueiro (conformação). É precisamente o contrário um esforço de reestruturação para enfrentar as perturbações do meio.
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