terça-feira, 10 de março de 2015

CENTRAÇÃO

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Centração

         É o fenômeno psicológico de fixar a atenção (percepção ou representação) num só ponto de totalidade. À medida que promove movimentos de pesquisa na totalidade (descentração), o pensamento vai criando reversibilidade e operacionalidade. La centración é a explicação para a falta de mobilidade operatória da intuição. Não se deve esquecer de que o pensamento é movimento. A centração pode ser afetiva ou intelectual, produzindo o egoísmo (afetivo) e o egocentrismo (intelectual). Os indivíduos centrados (intuitivos, egocêntricos e egoístas) não podem pertencer a grupos por falta de capacidade de cooperação e entendimento do ponto de vista do outro, concentrando as cargas afetivas num só elemento do grupo (subgrupo). A centração pode aparecer como uma “ideia fixa” num conceito, num indivíduo ou num objeto. É a antioperação. A centração perceptiva ou de representação é num ponto, desprezo dos demais pontos de vista (v. Teste das montanhas). A centração (característica da percepção) revela a ausência de flexibilidade do comportamento. Daí Piaget falar em “atividade perceptiva” por oposição à “percepção primária” (comum a todos os mamíferos). A “atividade perceptiva” descongela a “dureza gestáltica” (lei da boa forma da percepção). Quando Piaget fala em “revolução copernicana do eu” (por analogia ao heliocentrismo – Galileu- Copérnico – Kepler), significa que o eu deixou de ser um referencial privilegiado (centração) para ser um “objeto” como outro qualquer entre os demais.

AÇÃO

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Ação (atividade)

         “No começo está a ação...” A vida psicológica é simplesmente a atividade (comportamento) do organismo interiorizada, a) primeiro em representação (intuição), b) depois em operação (pensamento hipotético-dedutivo, lógico-matemático ou formal).

         Toda ação, evidentemente, é acompanhada da atividade neuroquímica e elétrica dos neurônios. Se imaginássemos essa atividade cerebral sem a respectiva atividade motora (sem gestos), teríamos uma ideia aproximada do que seja o pensamento (o pensamento é sempre acompanhado por uma atividade motora residual, sobretudo dos olhos). A ação pode aparecer também como verbalização (lógica das proposições) e tem a) uma estratégia (forma, modelo) e b) um tônus (modalidade, intensidade). Fala-se portanto em: a) ação sensório-motora; b) ação verbal; c) ação mental (simbólica ou operatória). Como a ação tende a organizar-se segundo modelos matemáticos, pode-se identificar, por exemplo: a) a lógica das ações, b) a lógica das proposições y c) a lógica matemática.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Colégio: esteira de produção (Parte 2)

Lauro de Oliveira Lima. Livro: Temas piagetianos.
Ed. Ao Livro Técnico
Colégio: esteira de produção
(Parte 2)
Escola ou máquina xerox? – Einstein foi um péssimo aluno – Criatividade ou padronização? – Nem palmatória, nem Pedagogia – O orientador virou psiquiatra –Qual o lugar do pensamento divergente?
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“Nada mais parecido com um colégio que uma fábrica de automóveis: a esteira de produção vai correndo, correndo e vomitando unidades”.

         Não me refiro aos professores paranoicos que chegam a criar ódio pessoal pelo aluno que não consegue domar e, no primeiro conselho de classe, proclamam “ou ele ou eu”. São casos psiquiátricos. Perigosos são os que massacram com a patrola do regulamento e reprovam 73% dos alunos, indo para as férias com o coração leve do dever cumprido! Jamais imaginam que fracassaram como profissionais, uma vez que seu objetivo não foi o de educar a criança, mas sim o de verificar se ela foi enquadrada no modelo adotado.
         Nada mais parecido com um colégio que uma fábrica de automóveis: a esteira de produção vai correndo, correndo e vomitando unidades. Lá fora, no pátio, a equipe de “controle de qualidade” (a banca examinadora) apontará aqueles que não se enquadram no gabarito mínimo. O colégio não assume qualquer compromisso de ensinar: despeja uma cascata de “salivação” e quem for podre que se quebre (é como encher 50 garrafas, aspergindo-as com uma mangueira). A tarefa de cuidar da aprendizagem fica com a família, com o professor repetidor, com a ameaça de reprovação. O diretor, um dia, chama o pai e comunica: “Seu filho vai mal”. Aí sugere que eles tomem providências... E as providências da escola? O sistema escolar baseia-se no fato de que as crianças (o ser humano) gosta de aprender. Se os alunos, de repente, não conseguem assimilar nada, o que é que falhou?
         Os diretores das escolas, geralmente, não são especializados em Pedagogia (os “particulares” especializam-se em contabilidade e os “públicos” em regulamentação). Não lhes ocorre que as escolas têm por obrigação obter bons resultados. Para os diretores, basta funcionar bem a linha de produção. Os refugos vão para a lata de lixo, Daí os diretores serem os maiores inimigos dos professores inovadores; estes atrapalham a rotina já estabelecida!
         Assisti há poucos dias, a uma reunião de “pais e mestres” cujo objetivo era comunicar que mais da metade da turma tinha sido reprovada. Cada professor (apoiado, entusiasticamente, pelo diretor) apresentava provas irrefutáveis de que os garotos eram marginais irrecuperáveis. Não entendi o que queriam dos pais... Nenhum referiu-se aos recursos psicopedagógicos que tinham usado para interessar os alunos. Ficou pacífico que sua função era recitar lições e a dos alunos decorá-las. Era como se dissessem: alinha de produção é perfeita a matéria-prima que nos fornecem é péssima. A escola antiga conseguiria ensinar com a palmatória e a vara de marmelo. Depois veio a ideia de substituir os instrumentos de tortura por pedagogia. Mas os mestres, tão eficientes com o chicote, não aprendem a “vender a sua mercadoria”. Está na hora de nomear professores, os especialistas em marketing (eles conseguem vender pente a careca).

Abril, 1979 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Colégio: esteira de produção (Parte 1)

Lauro de Oliveira Lima. Livro: Temas piagetianos.
Ed. Ao Livro Técnico
Colégio: esteira de produção
(Parte 1)
Escola ou máquina xerox? – Einstein foi um péssimo aluno – Criatividade ou padronização? – Nem palmatória, nem Pedagogia – O orientador virou psiquiatra –Qual o lugar do pensamento divergente?
         Einstein só começou a falar aos três anos de idade e sempre foi considerado como um “péssimo aluno” ... É provável que os alunos reprovados nos nossos colégios, salvo casos de evidente debilidade mental, sejam crianças de elevado nível intelectual. Para adaptar-se à estupida rotina da escola atual e aparecer como “bom aluno” é preciso que o jovem seja extremadamente medíocre; da mesma forma que um indivíduo bem dotado jamais se adapta a mediocridade da rotina burocrática (um bom burocrata é, por hipótese, um débil mental). Um “bom aluno”, como um bom burocrata tem que conformar-se a um processo em que não há lugar para um pensamento divergente, para a criatividade e para soluções imprevistas. O professor (como o chefe da repartição), está ali, de gabarito ou regulamento na mão, precisamente para evitar “erros”, isto é soluções novas...
         Quando meus filhos eram pequenos, adotei como política pedagógica cortar a mesada dos que tirassem notas muito altas na escola: é altamente suspeito para o desenvolvimento mental, o êxito numa escola onde o objetivo é “enquadrar” com referência a determinadas doutrinas, soluções ou formas de agir. A maioria dos professores está muito menos preocupada em produzir um novo Einstein, que em padronizar as crianças pelo parâmetro “ideal” (as escolas assemelham-se a uma máquina xerox, a cópia diferente é eliminada). Daí o prazer (mórbido) com que os professores se utilizam dos exames e das provas.

         Colocou-se dentro das escolas um orientador educacional para proteger as crianças que não se enquadram nas bitolas do regulamento escolar (tentando preservar a originalidade das crianças frente ao rolo compressor das provas-padrão). O resultado foi a criação de um novo inquisidor, farejador de complexos de Édipo, traumas infantis e outras baboseiras pseudo-freudianas. E o problema é, apenas, que o professor é incapaz de entusiasmar a criança pela matéria que leciona, isto é, pelo texto que recita como péssimo locutor. Enquanto o camelô, na avenida, é capaz de parar 100 executivos apressados, um professor não consegue captar o interesse das crianças ao descrever a história do homem neste planeta cheio de aventuras... Toda criança adora colecionar conchas, besouros, flores e, no entanto, o mestre de Biologia não consegue despertar seu interesse pelas formas vitais...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Logicização

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Logicização

                É o processo de transformar o pensamento simbólico e intuitivo em pensamento operatório. Caracteriza-se pela reversibilidade, associatividade, comparação, identidade, etc. Pode ser prática (lógica das ações), concreta ou abstrata. Quando abstrata, é proposicional (álgebra das proposições). Sem o pensamento operatório não é possível a co-operação intelectual: discussão, diálogo, compreensão do ponto de vista do outro. A logicização é um processo de equilíbrio e começa na ação. É o equilíbrio do todo com as partes, e vice-versa, e o equilíbrio das partes entre si. Numa relação amorosa (relação entre indivíduos diferentes e, por tanto conflitual) pode-se medir não só o nível energético (afetivo), como o grau de logicização (equilibração). Observando-se o indivíduo em ação (jogando futebol, por exemplo) pode-se medir a “lógica da ação”. Não se deve, portanto, supor que a lógica seja apenas verbal. Note-se que a logicização é um processo embriológico de que a lógica formal codificada é o estado final.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Linguagem

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Linguagem

         “Hermine Sinclair pôde demonstrar as relações entre o desenvolvimento das operações e da linguagem. O ponto-chave da pesquisa foi demonstrar que o desenvolvimento da linguagem não determina o desenvolvimento paralelo das operações, ao passo que o contrário é verdadeiro. As ideias de Chomsky estão mais próximas de minhas concepções” (Piaget). Não aceita, contudo, o mestre o inatismo do Chomsky, considerando que a “lógica da linguagem” é uma transposição para o plano linguístico da “lógica das ações” (o atraso da aprendizagem da linguagem nas crianças, na visão de Piaget, decorre da necessidade de construir-se primeiro a inteligência sensório-motora, cujas estruturas irão ser “dubladas” em forma de linguagem). Não aceita também (como Chomsky) que a infinita criatividade do processo linguístico tenha por base reflexos condicionados (embora o idioma seja aprendido por imitações, a criança que nunca ouve, por exemplo, fazi (ouve apenas fiz), começa dizendo fazi, que é a forma paradigmática (gramática de Chomsky) dos verbos em er (comi, bebi, etc.).

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Temas Piagetianos: É necessário criar uma nova forma de pensar (Parte 2 - final)

Lauro de Oliveira Lima. Livro: Temas piagetianos.
Ed. Ao Livro Técnico
“É necessário criar
uma nova forma de pensar”
Einstein (parte 2)


EINSTEIN
E PIAGET
         A concepção de tempo, espaço, velocidade, simultaneidade, (conceitos eminentemente físicos) varia ao longo do desenvolvimento da criança, de forma radical, como se em cada estágio do desenvolvimento a criança assumisse a forma de um “Einstein” paleontológico. Certa vez conta Piaget, Einstein (após de ouvir uma das suas conferências) pediu-lhe que investigasse como as crianças concebem, sucessivamente, a simultaneidade e a velocidade. Quando em outro encontro, Piaget transmitiu-lhe os resultados (que, por acaso confirmam as teorias einsteinianas), Einstein empolgado, comentou que a psicologia era ainda mais complexa que a física.
         Ora, essa transitividade da maneira de pensar não foi sequer incorporada pelos psicólogos e educadores, da mesma forma como a maioria dos físicos e matemáticos não incorporaram ainda a teoria da relatividade em sua maneira rotineira de pensar. Serão precisos séculos para que as ideias de Einstein sejam digeridas pela humanidade, em seu dia a dia. O mesmo acontecerá, em ciências humanas, com Jean Piaget, cujo centenário ocorrerá ás vésperas do ano 2000 (ele nasceu a 9 de agosto de 1896, em Neuchâtel, na Suíça)

Abril, 1979 
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