quarta-feira, 15 de julho de 2015

MODERNIZAÇÃO DAS ARTES TRADICIONAIS 2º parte

Livro: Para que servem as escolas
Autor: Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
1
MODERNIZAÇÃO DAS ARTES TRADICIONAIS

2º parte

...  Não se sabe como ensinar línguas, nem a razão do espetacular fracasso dos alunos em matemática, em todos os tempos e lugares. Em vez de pesquisarem esses problemas objetivos, os cursos de formação de professores discutem “o caráter político da educação”. Nunca se discute se esse pitoresco problema introduzido no programa surge na amamentação, que seria a forma embrionária da “exploração do homem pelo homem”! Dominada por soluções ideológicas deste tipo, a indústria soviética tornou-se obsoleta, salvo no setor aeroespacial, dizendo-se lá que “os foguetes funcionam, mas os liquidificadores vivem em pane”. Só agora, um novo líder tenta ser realista com o sistema de produção, inclusive “despolitizando” o sistema escolar, cujo atraso é histórico e universal. Como enfrentar o histórico e universal fracasso do processo escolar? Por que, em todas as demais “artes tradicionais”, aumenta constantemente a eficiência do processo e a quantidade e a qualidade do produto, enquanto a educação piora, ao longo do tempo, os resultados, como consta de recente relatório da UNESCO? O processo escolar tangencia os da arte de comunicação, onde os progressos tecnológicos (satélites) são, simplesmente, espetaculares, sem que essa proximidade tenha a mínima influência no manejo didático! O professor é o único profissional que não se esforça para demonstrar que, por trás de sua “arte”, existe um acervo de conhecimentos científicos, mesmo porque confunde o conhecimento (conteúdo) que possui de uma disciplina com a “arte de transmitir” (pedagogia, metodologia, didática, etc.), para falarmos a linguagem tradicional, pois hoje sabe que ninguém “transmite” nada a ninguém. A tola discussão entre “escola nova” e “métodos tradicionais”, ressuscitada por um grupo de acadêmicos anacrônicos, prova um fato elementar: o sistema escolar não tem conseguido assimilar a pesquisa científica, transformando-se num anacronismo frente à modernização das “artes tradicionais”.
            Uma das explicações é o fato de a educação iniciar-se com a puericultura: qualquer mãe, mesmo oligofrênica, julga-se com o direito de “educar” (é o chamado “instinto materno”, responsável por frequentes infanticídios). Nas classes abastadas, o recém-nascido é entregue a um agente de presença generalizada no processo cultural denominado babá, o que de pior pode existir para a criança como “modelo” de desenvolvimento mental (a babá é responsável pela permanência da maior parte das interpretações mágicas sobreviventes na mente da humanidade). No fundo, o professor não é senão uma babá sofisticada, com um anel de esmeralda um diploma que lhe garantem o ingresso na mais grave das profissões: o magistério. Felizmente, nossos filósofos, ao contrário do que fizeram na União Soviética, não invadiram a arte culinária, a pecuária, a fundição de metais! Se tivessem tido essa oportunidade, ainda estaríamos na pré-história; no mínimo, estariam grasnando, como fazem na “arte de educar”: “Voltemos aos métodos tradicionais”! … O processo civilizatório não é senão a “marcha da racionalização”: substituição da magia, do empirismo e da intuição por operações racionais! Nossa educação, como na tribo primitiva, continua a ser um artesanato elementar, com alguns passes do feiticeiro. Para se ter certeza disso, analise-se os chamados “planos de aula”, peças elucubradas sem nenhuma referência a fatos científicos. A alimentação, hoje, é confeccionada por um nutricionista, técnico que, por hipótese, conhece as relações do alimento (conteúdo) com o organismo (mente). O professor nada sabe sobre epistemologia do conhecimento (conteúdo) e sobre processos mentais de assimilação (psicologia da inteligência)! Como converter este “tecelão” anacrônico de que, há mais de um século, foi inventado o tear?! Como convence-lo de que não pode concorrer com a televisão e o computador?! Como convence-lo de que a memória eletrônica e os robôs subverteram as metas históricas do sistema escolar?! Como convence-lo de que é um fóssil sobrevivente num mundo transfigurado?! Ninguém sabe como convence-lo … Ninguém abala a convicção que o professor te, de que é competente, mesmo contrastando com o mundo técnico-científico em que vive! Como, então, reformar a educação? O Jornal do Brasil, de 6 de janeiro de 1988, trazia uma manchete sugestiva para o tratamento de mestres esclerosados: “Desprogramação recupera fanáticos na Espanha”. Trata-se de uma equipe que tenta reaver para os pais os filhos “sequestrados” por seitas religiosas. O poder público poderia criar um serviço parecido para “desprogramar” o professorado tradicional, incapaz de reciclar seu comportamento profissional, para sintonizá-lo com a tecnologia e a ciência atuais!

***

terça-feira, 30 de junho de 2015

MODERNIZAÇÃO DAS ARTES TRADICIONAIS 1º parte

Livro: Para que servem as escolas
Autor: Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
1
MODERNIZAÇÃO DAS ARTES TRADICIONAIS

1º parte

            A humanidade elaborou, ao longo das eras, uma série de “artes (técnicas) correspondentes a suas necessidades básicas: a arte culinária, a agricultura, a cerâmica, a pecuária, a tecelagem, a arquitetura, a engenharia, a puericultura, a medicina … e a educação. Grande parte da evolução civilizatória (cultura) baseia-se na simples substituição progressiva de modelos de ação empírica por modelos tecnológicos baseados na pesquisa científica (influência da racionalidade no comportamento prático). A modernização consiste, pois, em dar bases científicas a essas atividades e em inventar novas técnicas que tornem mais eficiente, eficaz e econômico o processo de produção. Tem sido espetacularmente drástica e acelerada as mudanças ocorridas, nos últimos séculos, nessas velhas “artes”. A invenção do tear, por exemplo, produziu, quase sozinha, a “revolução industrial” (processos mecânicos de tecelagem). O mesmo vem acontecendo, por exemplo, na agricultura, na pecuária, na arquitetura. Mas onde a ciência e a tecnologia subverteram profundamente uma “arte tradicional” foi na medicina (a expectativa de sobrevivência passou de 27 anos, em Roma, para quase 80 anos, hoje, nos Estados Unidos. A medicina transformou-se em “engenharia genética”, manipulando o próprio núcleo da vida através da “biologia molecular”. O médico (função exercida até pelos barbeiros, que funcionavam como cirurgiões) precisa, hoje, ser cientista (no mínimo os cientistas formulam as técnicas que o médico comum aplica, por vezes sem entender muito o que irá ocorrer no organismo). Fatos parecidos podem ser encontrados na evolução de quase todas as “artes tradicionais”, até mesmo na “arte culinária”. Menos em educação! A pedagogia, a puericultura, a didática, o processo escolar e a metodologia não se diferenciam, hoje, dos modelos usados na “iniciação tribal” (pré-história), em Roma, em Esparta, na Idade Média, antes da Revolução Francesa. Pelo contrário: o “fracasso escolar” (histórico e universal) parece aumentar com o correr do tempo (reprovação, evasão, baixo rendimento, perda de conhecimento, fraude, etc.). A pesquisa científica (psicologia, biologia, genética, epistemologia genética, neurologia, etc.) não influi na tecnologia educacional. O professor, agente da educação, comporta-se, hoje, como um simplório artesão tradicional, repetindo habilidades imemoriais. Se Aristóteles (450 aC) voltasse ao mundo, verificaria que os professores repetem, ainda, o seu modelo (peripatético) de dar aula, em meio a parafernália de um universo dominado pela sofisticada tecnologia. Isso na melhor das hipóteses, pois um grupo de  iniciados (conhecimentos infusos) propõe agora as mais pitorescas atividades , a título de “educação”: espontaneísmo, escola selvagem, ortofrenia, psicanálise, logopedia, educação artística, educação popular, pedagogia do amor, etc., abandonando totalmente as tentativas tradicionais de ensinar (conteúdo) e de treinar (habilidades), de tal modo que, alarmado, um grupo de educadores simplesmente prega a “volta à pedagogia antiga”, pelo menos como estratégia  (curvatura da vara) de retomada do bom senso (a finalidade indiscutível da escola é ensinar). Pulamos dos processos empíricos tradicionais para as fantasias modernas procedentes do pensamento mágico (o despertar dos mágicos). Não é de se admirar. Na medicina também existem regressionistas, apesar de alguns deles usarem “marca-passo”, drogas para desobstruir as coronárias, pontes de safena, muitos já macróbios, com imensa dívida para com a medicina moderna, não havendo meios de convence-los das sandices das soluções mágicas que propõem, o que equivale ao curandeirismo atávico (recentemente, um cientista patrício submeteu-se, em público, à pajelança praticada por dois feiticeiros indígenas). Por que o processo educacional não se moderniza, indo buscar na ciência e na tecnologia, os instrumentos de eficiência e eficácia? Por que o “fracasso escolar” aumenta em vez de diminuir, ao contrário do que ocorre em todas as demais “artes tradicionais”? Por hipótese (somente por hipótese), o magistério (os agentes da educação) deveria dominar as mais recentes e complexas conquistas científicas e tecnológicas da humanidade, para transmiti-las às novas gerações, como se fazia na pré-história, através da “iniciação tribal” (a educação continua a ser uma “iniciação tribal”) - pelo menos é a tarefa que a sociedade atribui ao magistério: ensinar conteúdos. O professor deveria ser o transmissor das melhores conquistas da “tribo”, como foi na pré-história! Contudo, cotejando-se esse grupo profissional com os demais (médicos, agrônomos, nutricionistas, engenheiros, etc.), verifica-se que é o grupo menos informado sobre a pesquisa científica, sobretudo a pesquisa referente a sua área profissional (psicologia, biologia, genética, história do conhecimento científico, epistemologia genética, etc.). Ainda hoje (problema que vem da Grécia e da Roma Antiga) não se sabe como alfabetizar uma criança. Existem centenas de métodos conflitantes, mantendo-se o fracasso escolar no mesmo nível histórico...

(Continuará...)

terça-feira, 16 de junho de 2015

O Desenvolvimento da Inteligência Tende para uma Estruturação Lógico-Matemática (3º parte)


(3a. parte)
Livro: Piaget para Principiantes.
Editora: SUMUS Editorial

O Desenvolvimento da Inteligência Tende para uma Estruturação Lógico-Matemática (págs. 51 e 52) (3º parte)

... J. Piaget, concordando com Kantor, afirma que, mais que as noções de “conjunto” devem ser ensinadas (desenvolvidas), nas crianças as intuições topológicas de onde derivam, geneticamente (reconstrução da arquitetura da matemática), as “intuições geométricas” (das geometrias projetivas e euclidiana), com a agravante de estes mecanismos estarem estreitamente, ligados à “construção do real” (representação do mundo) onde procedem os processos semióticos (dentre os quais a linguagem é o mais relevante). Tradicionalmente, a matemática inicia-se por operações elementares como número e medida (a ponto de os matemáticos suporem que estas noções eram formas a priori ou intuições básicas). Ora, não se pode operar sobre algo que não existe ainda, mentalmente: sem a combinação das noções de classe, série e correspondência não existe o número (salvo como uma palavra sem sentido) e sem as noções de contínuo, partição e deslocamento não existe a medida. Jean Piaget demonstra, por exemplo, que a noção de conservação (entre outras) deriva do grupo dos deslocamentos e que a conservação é a noção mínima para se poder contar e medir... Quando a criança domina, operativamente, as noções de número e medida, está a ponto de alcançar as operações abstratas que predominam nos processos matemáticos.

         O grande problema, portanto, é a pré-história da matemática. É difícil discutir-se com um matemático este problema, pois as noções pré-históricas da matemática não aparecem nos tratados elementares de matemática (e os matemáticos não se dão ao trabalho de estudar, por exemplo, a “gênese do número”). J. Piaget dedica dois volumes de quinhentas páginas cada um para descrever a embriologia das “intuições geométricas”, mostrando como das “homeomorfias” topológicas nascem as noções projetivas e a métrica euclidiana (o que corresponde, de maneira notável, às explicações teóricas da construção das geometrias). O grande trabalho do pedagogo, pois, não é descobrir uma “didática da matemática” (e a didática da matemática é o próprio método hipotético-dedutivo), mas planejar atividades didáticas que contribuam para a tomada de consciência de “embriologia das noções elementares da matemática” (atividade que ocupará um período de nove anos na vida da criança). A teoria de J. Piaget caracteriza-se pelo construtivismo (que por sinal é a forma de inventar a matemática), de modo que, a partir das atividades sensório-motoras, o pedagogo tem que encontrar processos didáticos que levam à construção das “noções elementares” da matemática. Quase nada se pode obter para isto dos matemáticos que partem de “intuições” que só aparecem no final deste longo período. O mesmo se pode dizer dos lógicos (os lógicos, também, não se dão ao trabalho de estudar a embriologia das noções elementares da lógica). O pedagogo, pois, tem que aprender um mínimo de matemática (teórica) para conduzir o desenvolvimento das crianças até o limiar das noções elementares usadas pelos matemáticos...

sábado, 6 de junho de 2015

O Desenvolvimento da Inteligência Tende para uma Estruturação Lógico-Matemática (2º parte)

(2º parte)
Livro: Piaget para Principiantes.
Editora: SUMUS Editorial

O Desenvolvimento da Inteligência Tende para uma Estruturação Lógico-Matemática (págs. 50 e 51)
(2º parte)
... A matemática hipotético-dedutiva (abstrata) dos matemáticos, portanto, é antecedida: a) de dois anos de atividades sensório-motoras (encaixes, ordenações e correspondências concluídas com a síntese do grupo dos deslocamentos); b) de cinco anos  de construções mentais (função semiótica) de alinhamentos (ordenações),  classificação (arranjos figurais), correspondências e cópia de modelos (concluídas com a síntese das noções de função e de identidade); c) de quatro anos de construção dos chamados “entes” matemáticos gerados pelas noções de seriação, classificação, partição (noções de número e deslocamento, medida, matrizes multiplicativas, quantificações de inclusões e de grandezas e conservações fundamentais).
         Existe, portanto, do ponto de vista pedagógico, uma pré-matemática (de fato, uma lógica elementar) correspondente: a) ao período sensório-motor; b) ao período simbólico; e c) ao período das operações concretas (agrupamentos de seriação, classificação, simetria, substituição, tábua de dupla entrada e árvore genealógica). Só após dominar estes elementos   infra estruturais, pode a matemática hipotético-dedutiva (a matemática é definida como uma ciência hipotético-dedutiva) ser apresentada à criança nas vésperas de sua entrada na adolescência. A chamada matemática intuitiva, de fato consta de longa elaboração operativa de coordenações de atividades e de estruturas elementares (estruturas de rede, de grupo, e estruturas topológicas). Em todos os chamados “entes” matemáticos (número, medida, constância, linhas, contínuo, etc.) estão latentes combinações de três estruturas-mães que são comuns à matemática e à inteligência em geral: a) estruturas algébricas (cujo modelo são os diversos tipos de grupos); b) estruturas de ordem (cujo modelo são as redes, lattices ou malhas) e c) as estruturas topológicas finitas elementares (cujos modelos são as vizinhanças, fronteiras, contínuo, donde surgem as chamadas “intuições geométricas”, isto, tanto no desenvolvimento da criança, como na reconstrução teórica das matemáticas modernas, segundo os Bourbaki).
         Para orientar uma proposta “curricular” destinada ao pré-primário (de dois a onze/doze anos) pode o pedagogo tomar como ponto de referência estas estruturas e suas combinações, de modo que possa ter certeza de que a criança construiu mentalmente (depois de construir sensório-motoramente), a estrutura de que se vai servir a matemática dos tratados elementares destinados às crianças. Ora, depois de dominadas estas       pré-noções matemáticas, a criança está habilitada a enfrentar com êxito os processos hipotéticos dedutivos da matemática, de modo que os processos “pedagógicos” se tornam irrelevantes (o método hipotético-dedutivo já é a “pedagogia” da própria matemática).
         A grande novidade, portanto, em matéria de “didática da matemática”, é a descoberta de que as “noções elementares” da matemática não tem nada de “elementares” precisando de um longo período de construção que vai do nascimento da criança aos onze/doze anos. É mesmo provável que as dificuldades históricas no aprendizado da matemática decorram de se considerarem “intuitivas” noções que demandam longa elaboração operativa. Kantor sugeriu que as noções de “conjunto” deviam ser ensinadas às crianças por serem, geneticamente (reconstrução da arquitetura da matemática) noções elementares (como as noções de correspondência que aprecem muito cedo no desenvolvimento da criança) ...

(Continuará)

sábado, 16 de maio de 2015

O Desenvolvimento da Inteligência Tende para uma Estruturação Lógico-Matemática (parte 1)


Livro: Piaget para Principiantes.
Editora: SUMUS Editorial

O Desenvolvimento da Inteligência Tende para uma Estruturação Lógico-Matemática (págs. 49 e 50)
(1º parte)

Num artigo inserido em L’enseignement des Mathématiques, T. I., Nouvelles Perspectives, Delachaux et Nestlé, 1965, Jean Piaget lembra que as estruturas-mães (Bourbaki) que os matemáticos consideram fundamentais, primitivas e irredutíveis (hoje, os matemáticos encontram “estruturas” ainda mais primitivas, como os morfismos, categorias, e funções, presentes, também, no desenvolvimento das crianças) são também as estruturas básicas que iniciam o desenvolvimento da inteligência das crianças, apresentando-se, nos dois primeiros anos, como atividades ainda sensório-motoras. Deste modo, a matemática pode ser apresentada como a sistematização (no plano hipotético-dedutivo) dos processos operativos usados pela inteligência desde a mais terna idade da criança, podendo-se dizer que, também a matemática, nos seus inícios não é senão a “coordenação das ações” (juntar, separar, incluir, etc.).
         Como a inteligência é, fundamentalmente, um processo combinatório, é evidente que, desde os primeiros momentos desta construção, as estruturas se combinam entre si, sem contudo, perder sua identidade. Só agora os matemáticos estão compreendendo (reorganização) que certas construções matemáticas, aparecidas historicamente, em primeiro lugar, são de fato, muito anteriores, na ordem genética da construção (“o que é primeiro na ordem da construção aparece por último na ordem de análise ou de tomada de consciência”). Assim é que, só recentemente, os matemáticos admitiram que as chamadas “intuições geométricas” (base das geometrias projetivas e euclidianas) não são intuições nem muito menos “entes”, mas resultado de longa e complexa construção a partir de “intuições” topológicas (vizinhança, fechamento, fronteira, etc.). Ora, a topologia, como disciplina matemática, só aparece, historicamente, recentemente.
         Esta descoberta é de importância excepcional para a pedagogia da matemática. Todo o estudo de geometria, projetiva e euclidiana, desta forma, deixa de partir de certas constâncias ou invariâncias tidas como a priori (linha, contínuo, distância, comprimento, correspondência, “intuições geométricas”, etc.) para começar pelas “intuições” topológicas. A construção das chamadas “intuições geométricas” exige um período de cerca de cinco anos no desenvolvimento da criança, precisamente, o período que vai de dois a sete/oito anos, quando se inicia o curso primário. Assim, a “matemática” do pré-primário (para não falar da matemática do sensório-motor) é de fato uma pré-matemática ou uma lógica embrionária, donde a dificuldade de os matemáticos (que acreditam nas “intuições” inclusive na do número: “Deus fez os números inteiros: o resto todo é obra dos homens”, Kronecker) de sugerirem atividades “matemáticas” para este longo e laborioso período do desenvolvimento da criança. Mas, não é só. De sete/oito anos a onze/doze anos, a criança constrói, lentamente, uma série de estruturas (classificação, seriação, substituição, simetria, tábua de dupla entrada, árvore genealógica) que serão indispensáveis para a aquisição das mais elementares noções da matemática (tudo isto que os matemáticos supõem que as crianças possuem, intuitivamente, ou de forma apriorística) ...
(Continuará)


quarta-feira, 15 de abril de 2015

O jogo como forma de aprendizagem (parte 2 - final)

Lauro de Oliveira Lima. Livro: Temas piagetianos.
Ed. Ao Livro Técnico
O jogo como forma de aprendizagem
Jogo vs. “ordem unida” – Homo Ludens vs. Homo Faber – O jogo como plenitude da capacidade operativa – Inteligência: quebra da rotina de funcionamento – A felicidade é inteligente – Algoritmos (fórmulas) e estratégias (jogo) – Aprender é jogar.
(Parte 2)
Como se vê, o propósito da educação não é o desenvolvimento da inteligência (jogo), mas a criação do automatismo (exercício). Todo processo educativo realiza-se como se o ser humano não fosse um animal inteligente. Ora, o que está em jogo é, precisamente, a inteligência (criatividade), pois as rotinas sociais, por si, são suficientes para criar hábitos, costumes, automatismos, (mesmo antes de existirem escolas, as crianças aprendiam os costumes e técnicas de sua tribo). Já que a vida social não é lugar próprio para o exercício da inteligência, pelo menos a escola deveria ser essa ilha sagrada onde a criatividade, a invenção e a descoberta tivessem oportunidade de manifestar-se. Mas, ao que parece, há um complô da sociedade inteira para evitar que a inteligência quebre as rotinas estabelecidas.
         “Pode-se dizer que o único professor que realmente educa é o instrutor de educação física, na medida em que ensina a jogar...”
         Um dia compreender-se-á que o processo educativo (a didática, a pedagogia) consiste, apenas, em transformar as situações em jogo (jogo motor, jogo verbal, jogo mental). Uma situação enfrentada através do jogo equivale, estritamente, à utilização da inteligência em sua forma mais pura. Usar a inteligência é, portanto, variar ao infinito as estratégias com que a situação é abordada. Nesse sentido, tanto o filósofo quanto o matemático são jogadores. O físico teórico e o técnico do laboratório exercem atividades epicamente lúdicas. A discussão didática promovida pelo sociólogo também equivale a um jogo mental (onde se buscam as soluções possíveis dos problemas previstos). O jogo é a única atividade tipicamente humana. Promover o jogo é hominizar o homem.

Agosto, 1979

segunda-feira, 30 de março de 2015

O jogo como forma de aprendizagem (Parte 1)

Lauro de Oliveira Lima. Livro: Temas piagetianos.
Ed. Ao Livro Técnico
O jogo como forma de aprendizagem
Jogo vs. “ordem unida” – Homo Ludens vs. Homo Faber – O jogo como plenitude da capacidade operativa – Inteligência: quebra da rotina de funcionamento – A felicidade é inteligente – Algoritmos (fórmulas) e estratégias (jogo) – Aprender é jogar.
(Parte 1)
         Segundo a Bíblia, o paraíso terrestre caracteriza-se pela ausência de trabalho. Deus não encontrou forma mais drástica para punir Adão de sua “curiosidade” que sentenciado “d’ora em diante, ganharas o pão com o suor de teu rosto...”. Realmente, nada mais tedioso que a rotina enervante do trabalho. O homem que trabalha sonha com o fim de semana, com os feriados, com as férias de fim de ano, com a aposentadoria... Todos nós invejamos a festa permanente da vida dos “primitivos” (nossos indígenas [os brasileiros] banham-se três a quatro vezes por dia nos rios). Por que será que jogamos com tanto entusiasmo (por vezes, jogos violentos e cansativos) e nos enervamos tanto com o trabalho? É que o trabalho, com suas rotinas e sua estereotipia, limita a polivalência da capacidade de ação do ser humano, ao passo que o jogo caracteriza-se pelo estímulo ao uso-limite dessa capacidade. E qual o papel do adversário? Precisamente, levar ao jogador a construir estratégias tão novas e surpreendentes que não possam ser previstas pelo contendor (quando o trabalho contém esses mecanismos, transforma-se em jogo e adquire os tônus do prazer).
         “Toda atividade lúdica é, necessariamente, inteligente. O jogo é fonte de alegria, logo...”.
         O jogo, a vitória ou êxito depende da exploração de todas as possibilidades estratégicas inerentes ao tipo de atividade em curso. O trabalho, pelo contrário, é tanto mais eficiente, quanto mais o indivíduo reproduz o modelo julgado adequado para obter o fim desejado (mercadoria). Normalmente, o trabalho transforma-se em hábito, em repetição, em “reação circular”, precisamente o que jamais deve ocorrer com o jogo. Sendo inteligente, isto é, sendo inventivo, criador transformador, o homem não pode gostar de rotinas (gostar de rotinas, aliás, é indício seguro de debilidade mental). O jogo é a própria manifestação da inteligência em sua atividade criativa.
         A rotina, repetição, o hábito são modelos de funcionamento que provocam a identidade do organismo e a paralisia da vida mental. A inteligência só se manifesta diante do novo (problema). As situações repetidas apenas apelam para a memória e para os automatismos. Na maioria dos homens, a inteligência só se manifesta nas raras ocasiones em que estão jogando, vez que, na vida diária os indivíduos limitam-se ao uso dos mecanismos reprodutores das rotinas aprendidas. Inconscientemente, o homem busca todos os meios para transferir suas rotinas às máquinas (automatização). O cálculo (tabuada, por exemplo) é um automatismo que nada tem a ver com a inteligência (apesar das observações em contrário dos matemáticos ingênuos). Que fez o homem? Criou a máquina de calcular para não ocupar seu cérebro com atividade indigna de sua infinita complexidade. Tradicionalmente, a escola (partindo do modelo cultural do trabalho), em vez de promover o jogo, dedica-se a exercitar, isto é, a transmitir rotinas, hábitos e automatismos. O exercício, como o trabalho, em vez de desafiar as possibilidades operativas das estratégias mentais possíveis, leva à repetição ad nauseam de um modelo, até a atividade pedagógica tornar-se insuportável para a criança (uma criança não trabalha porque a rotina é incompatível com o processo criativo que nela se opera).
         “Quando se chama escola de ‘ginásio’, inconscientemente afirmamos que aprender é jogar”. ...

Agosto, 1979

terça-feira, 10 de março de 2015

CENTRAÇÃO

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Centração

         É o fenômeno psicológico de fixar a atenção (percepção ou representação) num só ponto de totalidade. À medida que promove movimentos de pesquisa na totalidade (descentração), o pensamento vai criando reversibilidade e operacionalidade. La centración é a explicação para a falta de mobilidade operatória da intuição. Não se deve esquecer de que o pensamento é movimento. A centração pode ser afetiva ou intelectual, produzindo o egoísmo (afetivo) e o egocentrismo (intelectual). Os indivíduos centrados (intuitivos, egocêntricos e egoístas) não podem pertencer a grupos por falta de capacidade de cooperação e entendimento do ponto de vista do outro, concentrando as cargas afetivas num só elemento do grupo (subgrupo). A centração pode aparecer como uma “ideia fixa” num conceito, num indivíduo ou num objeto. É a antioperação. A centração perceptiva ou de representação é num ponto, desprezo dos demais pontos de vista (v. Teste das montanhas). A centração (característica da percepção) revela a ausência de flexibilidade do comportamento. Daí Piaget falar em “atividade perceptiva” por oposição à “percepção primária” (comum a todos os mamíferos). A “atividade perceptiva” descongela a “dureza gestáltica” (lei da boa forma da percepção). Quando Piaget fala em “revolução copernicana do eu” (por analogia ao heliocentrismo – Galileu- Copérnico – Kepler), significa que o eu deixou de ser um referencial privilegiado (centração) para ser um “objeto” como outro qualquer entre os demais.

AÇÃO

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Ação (atividade)

         “No começo está a ação...” A vida psicológica é simplesmente a atividade (comportamento) do organismo interiorizada, a) primeiro em representação (intuição), b) depois em operação (pensamento hipotético-dedutivo, lógico-matemático ou formal).

         Toda ação, evidentemente, é acompanhada da atividade neuroquímica e elétrica dos neurônios. Se imaginássemos essa atividade cerebral sem a respectiva atividade motora (sem gestos), teríamos uma ideia aproximada do que seja o pensamento (o pensamento é sempre acompanhado por uma atividade motora residual, sobretudo dos olhos). A ação pode aparecer também como verbalização (lógica das proposições) e tem a) uma estratégia (forma, modelo) e b) um tônus (modalidade, intensidade). Fala-se portanto em: a) ação sensório-motora; b) ação verbal; c) ação mental (simbólica ou operatória). Como a ação tende a organizar-se segundo modelos matemáticos, pode-se identificar, por exemplo: a) a lógica das ações, b) a lógica das proposições y c) a lógica matemática.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Colégio: esteira de produção (Parte 2)

Lauro de Oliveira Lima. Livro: Temas piagetianos.
Ed. Ao Livro Técnico
Colégio: esteira de produção
(Parte 2)
Escola ou máquina xerox? – Einstein foi um péssimo aluno – Criatividade ou padronização? – Nem palmatória, nem Pedagogia – O orientador virou psiquiatra –Qual o lugar do pensamento divergente?
....................................................................................................
“Nada mais parecido com um colégio que uma fábrica de automóveis: a esteira de produção vai correndo, correndo e vomitando unidades”.

         Não me refiro aos professores paranoicos que chegam a criar ódio pessoal pelo aluno que não consegue domar e, no primeiro conselho de classe, proclamam “ou ele ou eu”. São casos psiquiátricos. Perigosos são os que massacram com a patrola do regulamento e reprovam 73% dos alunos, indo para as férias com o coração leve do dever cumprido! Jamais imaginam que fracassaram como profissionais, uma vez que seu objetivo não foi o de educar a criança, mas sim o de verificar se ela foi enquadrada no modelo adotado.
         Nada mais parecido com um colégio que uma fábrica de automóveis: a esteira de produção vai correndo, correndo e vomitando unidades. Lá fora, no pátio, a equipe de “controle de qualidade” (a banca examinadora) apontará aqueles que não se enquadram no gabarito mínimo. O colégio não assume qualquer compromisso de ensinar: despeja uma cascata de “salivação” e quem for podre que se quebre (é como encher 50 garrafas, aspergindo-as com uma mangueira). A tarefa de cuidar da aprendizagem fica com a família, com o professor repetidor, com a ameaça de reprovação. O diretor, um dia, chama o pai e comunica: “Seu filho vai mal”. Aí sugere que eles tomem providências... E as providências da escola? O sistema escolar baseia-se no fato de que as crianças (o ser humano) gosta de aprender. Se os alunos, de repente, não conseguem assimilar nada, o que é que falhou?
         Os diretores das escolas, geralmente, não são especializados em Pedagogia (os “particulares” especializam-se em contabilidade e os “públicos” em regulamentação). Não lhes ocorre que as escolas têm por obrigação obter bons resultados. Para os diretores, basta funcionar bem a linha de produção. Os refugos vão para a lata de lixo, Daí os diretores serem os maiores inimigos dos professores inovadores; estes atrapalham a rotina já estabelecida!
         Assisti há poucos dias, a uma reunião de “pais e mestres” cujo objetivo era comunicar que mais da metade da turma tinha sido reprovada. Cada professor (apoiado, entusiasticamente, pelo diretor) apresentava provas irrefutáveis de que os garotos eram marginais irrecuperáveis. Não entendi o que queriam dos pais... Nenhum referiu-se aos recursos psicopedagógicos que tinham usado para interessar os alunos. Ficou pacífico que sua função era recitar lições e a dos alunos decorá-las. Era como se dissessem: alinha de produção é perfeita a matéria-prima que nos fornecem é péssima. A escola antiga conseguiria ensinar com a palmatória e a vara de marmelo. Depois veio a ideia de substituir os instrumentos de tortura por pedagogia. Mas os mestres, tão eficientes com o chicote, não aprendem a “vender a sua mercadoria”. Está na hora de nomear professores, os especialistas em marketing (eles conseguem vender pente a careca).

Abril, 1979 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Colégio: esteira de produção (Parte 1)

Lauro de Oliveira Lima. Livro: Temas piagetianos.
Ed. Ao Livro Técnico
Colégio: esteira de produção
(Parte 1)
Escola ou máquina xerox? – Einstein foi um péssimo aluno – Criatividade ou padronização? – Nem palmatória, nem Pedagogia – O orientador virou psiquiatra –Qual o lugar do pensamento divergente?
         Einstein só começou a falar aos três anos de idade e sempre foi considerado como um “péssimo aluno” ... É provável que os alunos reprovados nos nossos colégios, salvo casos de evidente debilidade mental, sejam crianças de elevado nível intelectual. Para adaptar-se à estupida rotina da escola atual e aparecer como “bom aluno” é preciso que o jovem seja extremadamente medíocre; da mesma forma que um indivíduo bem dotado jamais se adapta a mediocridade da rotina burocrática (um bom burocrata é, por hipótese, um débil mental). Um “bom aluno”, como um bom burocrata tem que conformar-se a um processo em que não há lugar para um pensamento divergente, para a criatividade e para soluções imprevistas. O professor (como o chefe da repartição), está ali, de gabarito ou regulamento na mão, precisamente para evitar “erros”, isto é soluções novas...
         Quando meus filhos eram pequenos, adotei como política pedagógica cortar a mesada dos que tirassem notas muito altas na escola: é altamente suspeito para o desenvolvimento mental, o êxito numa escola onde o objetivo é “enquadrar” com referência a determinadas doutrinas, soluções ou formas de agir. A maioria dos professores está muito menos preocupada em produzir um novo Einstein, que em padronizar as crianças pelo parâmetro “ideal” (as escolas assemelham-se a uma máquina xerox, a cópia diferente é eliminada). Daí o prazer (mórbido) com que os professores se utilizam dos exames e das provas.

         Colocou-se dentro das escolas um orientador educacional para proteger as crianças que não se enquadram nas bitolas do regulamento escolar (tentando preservar a originalidade das crianças frente ao rolo compressor das provas-padrão). O resultado foi a criação de um novo inquisidor, farejador de complexos de Édipo, traumas infantis e outras baboseiras pseudo-freudianas. E o problema é, apenas, que o professor é incapaz de entusiasmar a criança pela matéria que leciona, isto é, pelo texto que recita como péssimo locutor. Enquanto o camelô, na avenida, é capaz de parar 100 executivos apressados, um professor não consegue captar o interesse das crianças ao descrever a história do homem neste planeta cheio de aventuras... Toda criança adora colecionar conchas, besouros, flores e, no entanto, o mestre de Biologia não consegue despertar seu interesse pelas formas vitais...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Logicização

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Logicização

                É o processo de transformar o pensamento simbólico e intuitivo em pensamento operatório. Caracteriza-se pela reversibilidade, associatividade, comparação, identidade, etc. Pode ser prática (lógica das ações), concreta ou abstrata. Quando abstrata, é proposicional (álgebra das proposições). Sem o pensamento operatório não é possível a co-operação intelectual: discussão, diálogo, compreensão do ponto de vista do outro. A logicização é um processo de equilíbrio e começa na ação. É o equilíbrio do todo com as partes, e vice-versa, e o equilíbrio das partes entre si. Numa relação amorosa (relação entre indivíduos diferentes e, por tanto conflitual) pode-se medir não só o nível energético (afetivo), como o grau de logicização (equilibração). Observando-se o indivíduo em ação (jogando futebol, por exemplo) pode-se medir a “lógica da ação”. Não se deve, portanto, supor que a lógica seja apenas verbal. Note-se que a logicização é um processo embriológico de que a lógica formal codificada é o estado final.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Linguagem

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Linguagem

         “Hermine Sinclair pôde demonstrar as relações entre o desenvolvimento das operações e da linguagem. O ponto-chave da pesquisa foi demonstrar que o desenvolvimento da linguagem não determina o desenvolvimento paralelo das operações, ao passo que o contrário é verdadeiro. As ideias de Chomsky estão mais próximas de minhas concepções” (Piaget). Não aceita, contudo, o mestre o inatismo do Chomsky, considerando que a “lógica da linguagem” é uma transposição para o plano linguístico da “lógica das ações” (o atraso da aprendizagem da linguagem nas crianças, na visão de Piaget, decorre da necessidade de construir-se primeiro a inteligência sensório-motora, cujas estruturas irão ser “dubladas” em forma de linguagem). Não aceita também (como Chomsky) que a infinita criatividade do processo linguístico tenha por base reflexos condicionados (embora o idioma seja aprendido por imitações, a criança que nunca ouve, por exemplo, fazi (ouve apenas fiz), começa dizendo fazi, que é a forma paradigmática (gramática de Chomsky) dos verbos em er (comi, bebi, etc.).

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Temas Piagetianos: É necessário criar uma nova forma de pensar (Parte 2 - final)

Lauro de Oliveira Lima. Livro: Temas piagetianos.
Ed. Ao Livro Técnico
“É necessário criar
uma nova forma de pensar”
Einstein (parte 2)


EINSTEIN
E PIAGET
         A concepção de tempo, espaço, velocidade, simultaneidade, (conceitos eminentemente físicos) varia ao longo do desenvolvimento da criança, de forma radical, como se em cada estágio do desenvolvimento a criança assumisse a forma de um “Einstein” paleontológico. Certa vez conta Piaget, Einstein (após de ouvir uma das suas conferências) pediu-lhe que investigasse como as crianças concebem, sucessivamente, a simultaneidade e a velocidade. Quando em outro encontro, Piaget transmitiu-lhe os resultados (que, por acaso confirmam as teorias einsteinianas), Einstein empolgado, comentou que a psicologia era ainda mais complexa que a física.
         Ora, essa transitividade da maneira de pensar não foi sequer incorporada pelos psicólogos e educadores, da mesma forma como a maioria dos físicos e matemáticos não incorporaram ainda a teoria da relatividade em sua maneira rotineira de pensar. Serão precisos séculos para que as ideias de Einstein sejam digeridas pela humanidade, em seu dia a dia. O mesmo acontecerá, em ciências humanas, com Jean Piaget, cujo centenário ocorrerá ás vésperas do ano 2000 (ele nasceu a 9 de agosto de 1896, em Neuchâtel, na Suíça)

Abril, 1979 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Temas Piagetianos: É necessário criar uma nova forma de pensar (Parte 1)

Lauro de Oliveira Lima. Livro: Temas piagetianos.
Ed. Ao Livro Técnico
“É necessário criar
uma nova forma de pensar”
Einstein (parte 1)

         A 14 de março de 1879, nascia em Ulm, pequena cidade alemã às margens do Danúbio, um menino com a cabeça tão grande e angular que preocupou, consideravelmente, seus familiares. O bebê, que o médico garantiu ser uma criança perfeita, recebeu o nome de Albert Einstein.
         Era como se a História, estivesse unindo o nome de Einstein – precursor de uma nova era – ao de Kepler – artífice da época científica anterior – que morrera nessa mesma cidade de Ulm, berço do maior cientista do século XX – o “Século de Einstein”.
         As teorias einsteinianas provocaram profundas modificações na Física clássica e lhe valeram o Prêmio Nobel de Física, em 1921, pelo seu Efeito Fotoelétrico descrito na Teoria Fotônica da Luz. Mas, acima de tudo, Einstein foi um homem polêmico. Mesmo sendo um pacifista, colaborou para a construção da primeira bomba atômica e, embora acreditasse em Deus, reformulou as leis tidas como eternas. Sua infância também não foi das mais tradicionais. Ele só começou a falar aos três anos de idade e chegou a ouvir de seus professores a vã profecia: “Você nunca chegara a ser coisa alguma na vida”. Entretanto, uma bússola que ele recebeu de presente aos cinco anos de idade e o livro de Geometria de Euclides, já nos 14 anos, despertaram naquele menino uma profunda identidade, com as forças do universo.
         Selecionamos, entre seus pontos de vista, algumas considerações significativas, que transcrevemos a seguir.
         A um estudante:
         - Não se preocupe com as suas dificuldades em matemática. Posso lhe assegurar que as minhas são ainda maiores.
         Sobre a humildade:
- Cada pessoa seriamente empenhada em conquistas científicas se convence da existência de um espírito que preside as leis do universo – um espírito vastamente superior ao do homem e diante do qual nós, com nossos modestos poderes, devemos nos sentir humildes.
         Os prazeres:
         - Não dou a menor importância ao dinheiro. Condecorações, títulos e outras distinções nada significam para mim. Também não vivo a procura de elogios. As únicas coisas que me dão prazer, fora o meu trabalho, o meu barco a vela e o meu violino, são a compreensão e o apreço dos meus colegas cientistas.
Sobre o espírito da ciência
- Sou por natureza inimigo das dualidades. Dois fenômenos ou dois conceitos que parecem diversos me ofendem. Minha mente tem um objetivo supremo: suprimir as diferenças. Assim agindo permaneço fiel ao espirito da ciência que desde o tempo dos gregos, sempre aspirou à unidade. Na vida, como na arte, assim é também. O amor tende a fazer de duas pessoas um único ser. A poesia com o uso perpétuo da metáfora que assimila objetos diversos, pressupõe a identidade de todas as coisas.
         Caso as suas afirmações não se confirmassem:
         - Então eu lamentaria pelo bom Deus, pois a teoria está correta. (continua)...

Abril, 1979 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Professor, espécie em extinção (Parte 2 - final)

Livro: TEMAS PIAGETIANOS
Lauro de Oliveira Lima
EDITORA AO LIVRO TÉCNICO S.A
Indústria e Comércio
Rio de Janeiro – RJ / 1984
Professor, espécie em extinção (2ª parte)
Com a descoberta da imprensa, começa a extinção da função de professor
- O professor do futuro será uma fita cassete? – O programa é si8ntoma de arcaísmo- A bola ou o jogo? – O conteúdo ou a operação? – Motricidade e o grupo de deslocamento – Os paidagogos gregos e o magister ludi romano – A memória da inteligência
...
O NOVO PROFESSOR

         A atual (ou futura) função do professor é estimular o desenvolvimento intelectual sem preocupação com a extensão do conteúdo (o professor moderno já não se utiliza de programas; preocupa-se com as operações em jogo). O profissional que mais se aproxima, hoje, da moderna concepção da função docente é o professor de educação física e o técnico de um time de futebol. Se quisermos, hoje, avaliar o grau de anacronismo de um profissional do magistério, basta medir sua preocupação em “dar o programa”. Os administradores que, reformando os programas, pensam estar modificando o sistema solar... são meros arcaísmos incrustados no tempo presente como mariscos no casco de um navio transatlântico. Se um técnico de futebol, tentasse ensinar aos jogadores a fazer a bola... todos diriam que tinha enlouquecido (a bola é o conteúdo: o que se pretende é ensinar a jogar bola). Extinguiu-se o professor-especialista (em física, química, gramática, história, etc.). O professor voltou a ser o paidagogos grego (educador) que estimula, desafia, sugere, indica, critica, conduz, esclarece, assessora, enfim, “o professor não ensina: ajuda o aluno a aprender”. (L.O.L. Escola Secundária Moderna. ED. Forense Universitária)
         A professora do maternal, ao observar a criança correndo no pátio (como o professor de matemática do pré-adolescente) não está atenta aos conteúdos (tipos de jogos, por exemplo), mas ao número e qualidade das operações de que a criança é capaz (grupo geométrico dos deslocamentos). O que está em jogo, portanto, não é a memória (deixada por conta do banco de dados) mas a operacionalidade. É a esta nova atitude, que se denomina educar pela inteligência. A especialidade do professor moderno é, portanto, o desenvolvimento da criança pela psicogenética.
Outubro, 1978  

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Professor, espécie em extinção (Parte 1)

Livro:TEMAS PIAGETIANOS
Lauro de Oliveira Lima
EDITORA AO LIVRO TÉCNICO S.A
Indústria e Comércio
Rio de Janeiro – RJ / 1984
Professor, espécie em extinção (1ª parte)
Com a descoberta da imprensa, começa a extinção da função de professor
- O professor do futuro será uma fita cassete? – O programa é sintoma de arcaísmo- A bola ou o jogo? – O conteúdo ou a operação? – Motricidade e o grupo de deslocamento – Os paidagogos gregos e o magister ludi romano – A memória da inteligência
         A tendência geral do desenvolvimento tecnológico é substituir a atividade humana pelas máquinas. Se assim é, pode-se prever que a função do magistério será substituída por circuitos de televisão? No dia em que se pôs no mercado a máquina fotográfica, a arqueológica pintura ao natural, perdeu toda a sua funcionalidade, da mesma forma que a profissão do copista (escriba) foi extinta pela imprensa de Gutenberg. A introdução de um computador num banco, por exemplo, elimina uma dezena de funções tradicionais (o contabilista está perdendo terreno a olhos vistos). Mês passado, no Ceará, vi quarenta mil alunos regulares receberem aulas em suas classes, de uma estação de televisão. Cada classe tem um orientador especialista em dinâmica de grupo que estimula os alunos a praticarem as atividades sugeridas pela televisão, com a agravante de as aulas funcionarem, em perfeita ordem, quando o orientador falta.

HISTÓRICO
         O paidagogos, na Grécia heroica e na Roma Imperial, era o escravo que (como a babá de nossos dias) passeava com a criança e a levava à escola, ensinando-lhe etiqueta. O mestre (magister ludi) tinha por função, numa primeira etapa (trivium), ensinar o manejo da língua (gramática, retórica e dialética) e, numa segunda (quadrivium), exercitar a criança no cálculo e nas artes matemáticas (aritmética, geometria, música e astronomia), atividades, hoje, típicas do jardim de infância. Com o advento do cristianismo, as escolas (raríssimas) passaram a funcionar em conventos e paróquias, orientadas para a catequese (modalidade escolar que os jesuítas, com atraso de alguns séculos, trouxeram para o Brasil), com a instituição das universidades (lá pelo ano 1.000), a função de magistério passou a confundir-se com a de lector (aquele que sabia ler os manuscritos cujo conteúdo os alunos analfabetos precisavam aprender).
         Neste ponto, parou a evolução da função do mestre. Os professores não tomaram conhecimento, nem da descoberta da imprensa (divulgação em massa dos manuscritos arquivados nas universidades) nem da generalização da alfabetização (dispensando, portanto, o serviço precioso dos lectores). Ainda hoje os professores comportam-se como se os alunos fossem analfabetos e como se não houvesse livros disponíveis. É muito comum a aula expositiva denominada, na gíria pedagógica de aula de salivação. Este tipo de professor é um fóssil, uma espécie em extinção. Se a função do professor é expor determinado conteúdo (informar), consegue-se isto, com mais eficiência, através de um pequeno banco de cassetes. A função de informação já não é tarefa do professor, mas dos livros, do rádio, da televisão, do computador, da máquina de calcular, do banco de dados, etc. Dificilmente, o professor pode concorrer com estes modernos instrumentos de difusão de conhecimento, sobretudo, porque estes instrumentos podem captar a informação no mais alto nível disponível e atingir, instantaneamente, milhões (satélites artificiais). A aula-conferência, hoje só se justifica para as grandes sínteses (aula de sapiência) e os simpósios (comunicação de informação ainda não disponível nos bancos de dados). É especialidade das vedetes intelectuais encarregadas de agitar a inércia dos centros de transmissão de conhecimentos. (Continua...)

Outubro, 1978 



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Adaptação (Vocabulário Piagetiano)

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Adaptação
Assimilação, acomodação, “feedback”, cultura, jogo simbólico, objetividade, “mecanismo de defesa”, psicanálise.
Obs: As palavras acima são referências que lhe ajudarão a compreender melhor a palavra em destaque
         “Gosto mais de falar em adaptação-equilíbrio entre assimilação e a acomodação. Na adaptação temos dois polos: a) indivíduo-assimilação e b) objeto acomodação” (Jean Piaget). Tem-se a impressão de que a adaptação é sempre a subordinação do organismo ao meio, o que não é verdade. A criança pequena, por exemplo, faz a sua adaptação (princípio do prazer) através de pura assimilação, deformando o objeto (jogo simbólico). Mas não há acomodação sem assimilação, pois a acomodação é reestruturação da assimilação. Quando a assimilação e a acomodação se compensam, há equilibração (auto regulação): os erros são corrigidos e os excessos compensados (feedback). Na adaptação temos vários vetores: a) o organismo (a mente) modifica o meio (objeto) para adaptá-lo à sua forma de ação (cultura); b) o organismo (a mente) “deforma” o objeto (o meio) não tomando conhecimento de seus atributos (assimilação pura deformante do “jogo simbólico” das crianças e dos “mecanismos de defesa” a que se referem os psicanalistas); c) o organismo (a mente) se modifica (acomodação) para adaptar-se ao objeto (imitação). Equilibração seria o meio-termo em que o organismo modifica o objeto (meio) e também se modifica, partindo de clara e progressiva objetividade (na medida em que a objetividade é possível)


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Comunicação (Vocabulário Piagetiano)

Livro: Piaget. Sugestões aos educadores
Vocabulário Piagetiano
Lauro de Oliveira Lima
Editora Vozes
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.
Conceito: Comunicação
         É o processo que torna “comum”, a duas ou mais pessoas, uma experiência (vivência) anteriormente individual. Para que uma experiência se comunique é preciso que seja codificada num sistema de símbolos-signos e descodificada pelo receptor. A comunicação é sempre bipolar. Distingue-se da mera informação em sentido contrário do mesmo valor. Só há comunicação se os comunicadores estiverem no mesmo nível de operacionalidade e usarem um código comum. A comunicação é um fenômeno de grupo (a informação pode ser para a multidão). Se não houver um mínimo de nivelamento, pois, não existe grupo por falta de comunicação. Ora, quanto mais comunicação, mais logicização e mais codificação. A comunicação supõe significantes artificiais, convencionais e de alta generalidade (aceito por todos). Dessa forma o que se ganha em singularidade, perde-se em comunicação. Daí a incomunicabilidade do vivencial (declarações de amor, por exemplo). O instrumento de manifestação vivencial, pois, não é o código linguístico convencional regido pelo pensamento lógico. É a singularidade motivada pelo pensamento simbólico (produção artística). A obra artística não comunica, manifesta (na medida que não é um código convencional). O observador é que tem de ler a obra e interpretá-la, segundo as induções processadas em suas próprias vivências. A comunicação é um processo grupal de cooperação. E a cooperação exige a renuncia à singularidade. Daí os equívocos das relações amorosas.


terça-feira, 4 de março de 2014

Acomodação (aprendizagem e aumento de conhecimento)

Livro: PIAGET. Sugestões aos educadores
Vocabulário
Introdução aos conceitos fundamentais das teorias de Jean Piaget.   
Editora VOZES
Lauro de Oliveira Lima
Acomodação (aprendizagem e aumento de conhecimento) (Pág. 146/147)
Obs: As palavras acima são referências que lhe ajudarão a compreender melhor a palavra em destaque.


reestruturação invenção evolução
"aprendizagem" descoberta comportamento
problema dificuldade conformação
perturbação pedagogia
agressão do meio reorganização
assimilação cibernética
esquema de ação feedback
paradigma regulação
reconstrução imitação
combinatória jogo simbólico
novidade complexificação




            A acomodação é a reestruturação do esquema (estratégia) de assimilação (não há acomodação senão no curso de uma assimilação). A acomodação é a “aprendizagem” ou o aumento de conhecimento, modificação operativa na forma de agir (pensar). Diante de uma dificuldade (problema), o organismo (a mente): a) recua ou desiste da atividade; b) deforma a situação (mecanismo de defesa ou jogo simbólico) para adaptá-la aos esquemas de assimilação; c) reestrutura o esquema de ação (acomodação). Adaptação. Feita a reestruturação, o organismo (a mente) passa a dispor de um novo esquema de ação que deve ser alimentado (diz-se que houve uma “equilibração majorante”). Essa forma de agir ocorre em todos os níveis do desenvolvimento. A “mudança de paradigma” na pesquisa científica é simplesmente uma “acomodação”. A teoria anterior (esquema de assimilação) não conseguiu explicar (assimilar) totalmente a situação. Quando a criança de colo modifica sua maneira de agir para superar uma dificuldade, faz uma acomodação. Por aí se vê que o aumento de conhecimento (aprendizagem) depende de uma reestruturação do comportamento (motor, verbal ou mental), provocada por um problema (e aí temos uma nova pedagogia). Desta explicação piagetiana decorre o axioma: “não se aprende nada inteiramente novo” o conhecido corresponde à assimilação (o novo é a acomodação). Piaget já quase não falava em assimilação-acomodação. A teoria da equilibração ou da auto regulação explica melhor o que ocorre entre o sujeito e o meio. Note-se que a acomodação pode ocorrer entre esquemas (os esquemas se assimilam mutuamente), caso em que, em vez de adaptação ao meio, houve reorganização motora, verbal ou mental). Quando o organismo (a mente) perde a capacidade de reestruturar-se, o organismo (mente) deixou de desenvolver-se.
            Na linguagem cibernética (que Piaget adota em parte), a acomodação é o efeito do feedback (regulação), com a diferença de que Piaget fala em “equilibração majorante” ou ultrapassagem (complexificação da estrutura). A acomodação é a subordinação do organismo ao meio (a imitação é o melhor exemplo de acomodação). Há assimilação sem acomodação (jogo simbólico das crianças) mas não há acomodação sem assimilação, mesmo porque a assimilação é uma reestruturação da acomodação. – v. Adaptação

A acomodação consiste na complexificação (combinatória) de esquemas anteriores (aumento de mobilidade do esquema). Para Piaget, a evolução é também uma acomodação (“o comportamento como motor da evolução”). Note-se que a expressão acomodação nada tem a ver com o seu sentido corriqueiro (conformação). É precisamente o contrário um esforço de reestruturação para enfrentar as perturbações do meio.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...